Carta 115
Iniciante
Adalgisa tem uma empresa de um milhão e se sente iniciante. Fomos tão treinadas para sermos versões menores de nós mesmas que nem os dados nos convencem do nosso próprio tamanho.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita chega nessa sexta?
Esqueci de contar para vocês, mas meu sobrinho estava de férias e tem um mês que eu não vejo a criatura.
Ele voltou de viagem essa semana, e acabamos de passar a tarde na piscina, comendo o almocinho que ele adora (quantidades obscenas de farofa “amalelinha” e “fanguinho”, segundo o dito cujo).
Isso é relevante para a carta de hoje? Não, totalmente zero relevante, mas como eu compartilho aqui muitas coisas ótimas e maravilhosas, então vou me dar a licença poética de ser apenas uma tia babona.
A carta de hoje é sobre um caso real que aconteceu essa semana.
Se fosse a primeira vez que eu encontrasse, tava bom, mas não foi o primeiro e, se depender do nosso trabalho na Fluida, estamos fazendo tudo para que seja o último.
Comecemos.
Bom, esse caso começa em uma reunião do Divã, que é uma reunião que eu faço com algumas empresárias antes de elas entrarem nos programas aqui da Fluida.
Entendo o negócio, os perrengues, os bônus, traço um plano de ação e digo:
“Minha senhora, é por aqui que temos que ir.”
A empresária em questão chamaremos de Adalgisa.
Adalgisa criou sua empresa na cara e na coragem.
Foi fazendo como achava que tinha que fazer.
Sem curso, sem formação, sem ninguém dizendo o caminho das pedras, assim como uma parte muito significativa das mulheres.
Adalgisa tem uma equipe, clientes recorrentes, muita responsabilidade, dados para analisar, planilhas para fazer, bônus para resolver.
Investiguei com ela pedacinho por pedacinho do negócio.
Entendi a esteira, os funis, como eram os rituais de gestão.
No resumo da ópera:
Adalgisa vinha fazendo na base do talento.
Ela sentia que faltava gestão
no rolê.
Sabe a sensação de ser amadora, de não estar fazendo as coisas direito?
De ter chegado lá na base do “sabe-se lá o quê”?
Adalgisa se sentia assim.
Ela tinha sonhos megalomaníacos, me contava como sonhava que a equipe se relacionasse entre si, como queria que fosse o clima, a cultura, o relacionamento com os pacientes.
Uma visão deveras bonita, por sinal.
Identifiquei gargalos e pontos fortes:
- Clientes mega satisfeitos, há anos com ela.
- Uma equipe tecnicamente invejável.
- Uma questão no formato de pagamento que gerava um buraco no caixa no meio do mês.
- Uma base de leads enorme que nunca foi ativada para uma recompra.
Fora alguns outros pontos, o resumo era:
“Minha senhora, tem dinheiro para caralho para ser feito aí nessa empresa.”
Adalgisa se anima e me diz “nossa, que maravilha! Eu achei que ia ter que criar outro produto. Então nem vai precisar, né? Com o que eu já tenho, a gente faz esses 5 dígitos a mais de receita!”
Eu, animadíssima com a impressora de dígitos que a empresa se transformaria, falo para ela que sim, sim e sim!
Não vamos precisar criar porra nenhuma nova.
Vamos só alinhar os processos que você já faz para que eles sejam mais eficientes.
Isso vai tapar uns buracos, trazer mais dinheiros e aí a mágica acontece: lucro gordinho todo mês no caixa.
Adalgisa, empolgada, animada, me responde:
“Bora então fazer isso juntas.”
Eu mostro em detalhes para ela como faremos isso juntas: o programa, método, preços, formas de pagamento e calendário.
Explico minuciosamente o porquê por trás de cada coisa que vamos fazer.
- Por que vamos levantar os dados financeiros antes de fazer qualquer coisa
- Por que vamos ter encontros regulares para ajustar o plano de ação
- Por que vamos deixar um monte de “tem que” fora da mesa e nos concentraremos em poucos e relevantes projetos
Adalgisa concorda.
Diz que não tem nenhuma dúvida.
Que ela encontrou o que estava procurando.
Começamos a alinhar detalhes burocráticos: data de vencimento da primeira parcela, semana do onboarding…
Percebo uma hesitação instalada bem no meio das sobrancelhas
de Adalgisa.
Pauso e pergunto:
“Tem algum ponto aqui que a senhorita tá com dúvida, que não ficou claro?”
Ela enfim solta o desconforto:
“Então, Mari, é que eu queria que você me explicasse por que você tá me recomendando esse plano avançado.”
(Só para te situar: aqui na Fluida, nossos programas são divididos em níveis — tem os iniciantes, os intermediários e os avançados. Assim, em cada programa, a gente trabalha os desafios daquela fase em específico.)
Muito que bem, eu acho curiosa a pergunta, mas respondo:
“É porque a sua empresa está em estágio avançado. Nós precisamos de um programa à altura da complexidade dos B.O.s que vamos resolver.”
Ela pensa, reflete e me pergunta de novo “tá, entendi… Mas assim, eu acho que eu sou iniciante, não?”
Minha ficha cai.
Eu entendo imediatamente o que Adalgisa quer dizer; já vi isso centenas de vezes.
É ela, a danada da cegueira interna.
Espero alguns segundos e pergunto para ela:
“Adalgisa, eu vou te fazer algumas perguntas aqui, e você me diz o que você acha sobre uma empresa que tem esses dados aqui, tá?”
Ela assente com a cabeça, e eu começo a elencar:
Imagine uma empresa com 7 anos de mercado.
Com mais de 70 clientes MENSAIS,
Uma equipe de mais de uma dezena de pessoas,
Faturamento na casa do MILHÃO.
Você acha que essa empresa, essa aí que eu acabei de descrever, é uma empresa iniciante?
Ela franze a testa, dá um sorriso quase envergonhado e responde:
“Não.”
Pois então, Adalgisa, essa é a SUA empresa.
Nós estamos falando de equipe técnica multidisciplinar, uma equipe interna de TI, contabilidade, gerente, secretárias, uma sede física, quase uma década de mercado e (repito com ênfase) MILHÕES em faturamento.
VOCÊ NÃO É UMA INICIANTE.
Ela silencia.
O assombro misturado com orgulho.
Vem a resposta:
“É, Mari… Entendi… É que tá… Minha empresa não é iniciante, mas eu sinto que EU sou.”
Eu SINTO que eu sou.
Não bastavam os dados esfregados na face de Adalgisa, o faturamento, os clientes e a equipe…
Ela se SENTIA
iniciante.
E aí tá a parada.
Nós, mulheres, fomos tão treinadas para sermos versões menores de nós mesmas
que, mesmo com provas tão contundentes quanto MILHÕES expressos em uma planilha, parece não ser suficiente para calar a voz que grita dizendo que somos diminutas.
Eu viro para Adalgisa e sirvo um chá de realidade:
“Você pode SENTIR que é uma iniciante, mas sua empresa me PROVA que você não é.”
Mais silêncio.
Ela reflete…
Sorri e parece ter encontrado um fiozinho de clareza sobre seu próprio tamanho.
“Tá bom, Mari, vai ser difícil, mas eu vou conseguir… Ainda bem que hoje é dia de terapia.”
Eu entendo, Adalgisa, e você certamente entende.
Nos enxergamos como uma versão miniaturizada dos nossos feitos.
Comprimimos nossas vitórias.
Fatiamos em pedaços microscópicos nosso progresso.
Pequeno demais.
Lento demais.
Atrasado demais.
Nunca é grande o suficiente.
Nunca somos fodas o suficiente.
Nos enxergamos tal qual um satélite fazendo fotos panorâmicas do planeta Terra.
Lá de longe, é tudo só um pontinho no espaço.
Eu não sei quais feitos você já alcançou, quantos dígitos faturou, que batalhas pessoais travou, mas eu posso afirmar com a certeza de que a Terra não é plana que você não sabe o seu tamanho.
Não, você não sabe.
Eu sei.
Eu vejo CENTENAS de vocês todos os anos.
Fico cara a cara.
Ouço por muitas horas seus desejos, sonhos e tudo que abrem mão pelas coisas em que acreditam.
Não existiu um só dia em que eu me sentasse na frente de uma mulher pequena.
Em uma década, eu JAMAIS presenciei uma mulher que se achasse melhor do que realmente era.
NUNCA.
Se o seu espelho tem te mostrado uma versão apequenada de você mesma, experimente usar o meu.
E faça um favor para todas nós:
Assuma logo o seu tamanho.