Carta 114
Sem entrada
Empresárias chegam até mim sem brilho, à beira do burnout, sem férias há anos. O problema não é o trabalho: é sofrer calada. Dê voz ao que está cagado na sua vida.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita chega nesta sexta?
A carta de hoje vai ser direta e reta.
Hoje não teremos historinha para exemplificar.
Nem analogias inusitadas para provar meu ponto, talvez uma ou duas (que eu me conheço).
Hoje o menu é sem entrada.
Pulemos para o prato principal.
Se você é uma dino fluida
, sabe que eu me comunico muito à base de áudios.
Seja mentorada, lead, equipe… Eu gosto de falar e de ouvir
COMO
as pessoas falam as coisas.
Esta semana tive uma caralhada dessas conversas com empresárias que estão buscando a Fluida para resolver a gestão das empresas.
E, coincidentemente ou não, essa semana alguns casos muito parecidos chegaram para mim. Vou descrever alguns aqui:
- Uma delas me mandou um áudio emocionada, dizendo que tinha perdido o brilho pelo negócio, a ponto de querer muito mudar o que vem fazendo, mas não ter mais energia para isso.
- Outra me disse que está à beira de um burnout, porque tem tomado muitas decisões e não tem ninguém para dividir isso com ela.
- A terceira não tira férias há 4 anos e me confessou que, se conseguirmos colocá-la para ter uma semana longe do trabalho, o ano já estaria ganho.
Provavelmente, tu já foi, está sendo ou será alguma dessas empresárias.
Ou já viveu questões parecidas com a sua PJ.
Tu já reparou como parece que empreender é capaz de levar os cromossomos X à loucura?
Que é necessário uma boa dose de terapia, yoga, meditação e os caralhos para dar conta da avalanche emocional que uma empresa é capaz de nos provocar?
Pois muito que bem, hoje eu queria refletir juntas sobre um troço que eu tenho percebido com frequência
e acho que contribui enormemente para essa sandice coletiva na PJ.
Se você olhar para o Instagram de todas elas, está tudo lindo: prova social no talo, prints de faturamento, takes desfrutando uma refeição superfaturada em porções diminutas.
Eu sei o quanto é importante PARECER ser foda para que nossos conhecimentos sejam dignos de serem trocados por dinheiro.
Maaaas, ao mesmo tempo, eu queria aqui levantar a possibilidade de que essa obrigação para performar sucesso pode estar levando a senhorita para longe dele.
Vou explicar com uma analogia:
Quando queremos nos sentir belas e sexys, aprendemos que não há nada mais eficiente para isso do que o trio: salto fino, vestido a vácuo e sutiã push-up.
Você pode ficar sem ar, com a lombar gritando e com sérias dificuldades para se inserir no vestido sozinha, mas veja por outro lado: suas pernas estão belíssimas e seu peito nunca nem viu a gravidade.
Vale a pena, né?
Se vale a pena ou não, cada mulher pode falar por si.
Mas eu sei que isso nos ensina que é plenamente ok se autoinduzir a sofrimentos diversos para alcançar alguma coisa que seja.
Resumindo: sofrer sem ninguém saber.
Em regra, essa coisa é a aprovação dos homens, mas podemos deixar essa conversa para depois.
Essa educação para a passividade.
O reforço que recebemos por performarmos sucesso enquanto estamos deveras desequilibradas internamente é mais prejudicial do que os pepinos reais
que temos que resolver.
Mas, além de termos nossas chances reduzidas, a gente sofre muito mais do que precisa.
Sabe por quê?
Porque estamos sofrendo, pasmem, caladas.
O funil que o mentor te mandou fazer desalinha todos os seus chakras, mas você continua fazendo.
A estratégia que a consultoria te indicou não tem nada a ver com a proposta de valor da sua empresa, mas você continua fazendo.
A narrativa que o guru de storytelling
te sugeriu te dá até vergonha de fazer, mas você continua fazendo.
E esse negócio de sofrer calada não parece funcionar para nós.
Na verdade, o que funciona para nós é sofrer em conjunto.
Vou explicar: já percebeu como o fato de você contar sobre um problema com uma amiga já acalenta o seu coração, mesmo que a desgraça do problema ainda esteja intacta, nas exatas proporções que tinha antes da conversa?
Pois então, deve existir alguma explicação evolutiva para esse comportamento, mas, tendo ouvido mais de uma centena de cérebros femininos, ficou bem claro na minha cachola que, às vezes, tudo que uma empresária precisa é só ser ouvida.
Engraçado como isso é quase mágico.
Poucas vezes senti uma empatia tão grande.
E eu fico aqui me perguntando: não é possível que isso que eu fiz, que na minha visão é o básico do básico, seja tão raro na vida das empresárias?
Sinto uma pontadinha fria de tristeza por saber que, para a maior parte delas, isso é verdade. Já ouvi e li isso algumas dezenas de vezes.
Mas também me dá um alívio de saber que, pelo menos aqui na Fluida, “ouvir com empatia” não é um serviço plus premium vip
, é nosso arroz com feijão.
É verdade que o mundo tem sérios problemas auditivos com as nossas reivindicações.
Mas também é verdade que frequentemente a gente sequer abre a boca para falar.
Então, assim, a carta de hoje é um misto de provocação e reflexão
para fazermos juntas.
A senhorita deveria falar mais sobre as coisas que te incomodam.
E hoje não estou falando da parte de exigir que o mundo nos ouça.
Estou dizendo de falar para pessoas que você confia sobre o que está cagado na sua vida.
No seu negócio ou qualquer que seja a área da sua vida que está meio capenga.
Essa parada de performar sucesso toda hora está levando a gente à beira da insanidade.
Preciso ser justa aqui e te lembrar que você vai precisar escolher um local seguro para poder falar dos seus fracassos. Porque, pelo menos hoje, o mundo não curte muito mulheres que mostram suas fraquezas por aí.
Mas, porra, tu tá cheia desses lugares. Você tem amigas, irmã, tia, primas… talvez o seu grupo de mentoria, sua mentora… Tu não precisa performar sucesso para elas, não, tá?
Dá para ser foda e, ainda assim, ter 89 mil pepinos para resolver.
Dá para ser foda e estar em pânico com a reestruturação do seu time.
Dá para ser foda e ter tido um mês bosta de vendas.
Dá para ser os dois.
Só não seja nenhum deles calada.