Carta 111
Durvalzinho
O que acontece quando você resolve ficar sozinha num show enquanto as amigas vão embora — e o que isso tem a ver com empreender.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSAS!
Você viu que belíssimo número é a carta de hoje?
111
Três pauzinhos verticais, um primor.
Sim, minha cabeça funciona exatamente assim. Não tente entender, apenas acompanhe.
Nos últimos dias no País Fluida tivemos a Tour pelo James, meu tablet novo, que me gerou mais pedidos de link do que o massageador da carta número 107 (se você não leu essa carta e não tem intenção de comprar um massageador eletrônico, continue sem ler).
Enquanto avalio seriamente a possibilidade de me tornar divulgadora de porcarias eletrônicas para adultas, vim trazer a reflexão de hoje.
Essa reflexão se deu em um ambiente, digamos, não propício para profundas reflexões.
Eu pensei tudo isso que vou te contar hoje enquanto sacolejava os braços ao som de Timbalada na lateral de um trio elétrico.
Comecemos.
Semana passada, eu e minhas amigas de infância decidimos saborear uma dose de nostalgia.
Compramos ingresso para um show do Durval Lelys e da Timbalada. Durval é o moço do Asa de Águia, caso a senhorita não lembre.
Esse aqui:

Não que fosse necessária uma foto do ilustre referido numa carta sobre gestão feminista, mas pensei que talvez não houvesse oportunidade igual em minha carreira.
Então decidi por bem colocar uma foto de um moço que toca axé há 49 mil anos no meio de uma carta destinada ao público feminino que tem CNPJ. Check.
Bom, fomos ao show que íamos quando éramos adolescentes. Depois de um perrengue terrível para conseguir comprar os ingressos, começa aquele rolê no grupo:
“Com que roupa você vai?”
“Ainda se vai de tênis para esses eventos?”
Arrumação vai, arrumação vem, chegamos atrasadas.
Vai para a bilheteria, consegue resolver o B.O. dos ingressos e pega a belíssima peça de vestimenta chamada ABADÁ.
Sim, uma camiseta de um tecido questionável, com uma estampa mais questionável ainda, que deixará o seu look automaticamente igual ao de todas as outras pessoas presentes.
Vesti o bonito.
Entramos.
Eu já fui em vários e vários shows do Durval na vida, mas pense num show que tava marromeno.
Eu estava esperando aquela energia caótica e randômica que rola quando você junta centenas de pessoas uniformizadas atrás de um trio elétrico, movidas por muitos decibéis de alegria.
O homi tava tocando umas músicas que eu, nem nenhuma das minhas amigas, conhecíamos.
Não sabia dizer se eram músicas velhas ou novas demais para a minha idade.
Fato é que eu não sabia nada.
Mas eis que ainda havia uma esperança: depois do show do moço do Asa havia a promessa de uma belíssima apresentação da TIMBALADA.
Você provavelmente não consegue me visualizar correndo atrás de um trio com os braços para cima, berrando a plenos pulmões:
“A Timbalaaaada traz axééé para vocêêê!”
Pois tente imaginar.
Eu tenho memórias afetivas muito marcantes de momentos felicíssimos da minha vida em que eu estava aonde?
Num show da Timbalada.
Não importa que as músicas sejam as mesmas há mais de 10 anos, eu me emociono, corro e pulo com todas.
Bom, a despeito do show meio blé do Durvalzito, eu decidi:
“Não saí da minha casa para isso. Vou esperar até o show da Timbalada.”
Mas eu comecei a perceber que essa missão não parecia estar sendo compartilhada pelas minhas companhias.
Duas mães, 35+, expressavam visivelmente seu desejo ardente de ir para casa tomar um vinho em paz.
Fomos juntas, mas eu queria MUITO ver o show.
Passei a semana pensando nele.
Bom, é o jeito, né?
Não vou ficar sozinha num show sem ninguém.
Adeus, Durval. Adeus, Timbalada…
Foi esse pensamento que cruzou meus miolos:
“Não vou ficar num show sozinha, né?”
Meu outro divertidamente prontamente se questionou:
“E não vai ficar sozinha por quê?”
Comecei a avaliar os riscos:
O ambiente me parece seguro.
Não vi nada suspeito ou perigoso.
Já tá combinado de Sr. Fluido vir me buscar.
Se der qualquer merda, eu posso ligar para ele antes.
À medida que eu ia pesando os prós e contras, percebi que eu ACHAVA que o que me impedia de deixar minhas amigas irem e ficar para ver o show que eu queria PARECIA ser uma preservação em relação à minha segurança.
Mas só parecia.
Eu, de fato, me SENTIA segura ali.
Nada me indicava algum perigo que me deixasse desconfortável.
Eu não tava com medo da minha segurança.
Virei para as amigas e disse:
“Pode ir, gente, eu vou ficar.”
Recebi de resposta um:
“Amiga… tem certeza? Você vai ficar bem sozinha?”
SIM. Eu vou.
Elas foram embora e eu fiquei… sozinha.
Não deu 15 minutos, encontrei um amigo.
Homem.
Sozinho.
Andando pra lá e pra cá.
Aproveitando.
Ele não parecia estar incomodado por estar sozinho.
Me cumprimentou, conversamos e ele saiu pleno, andando para onde queria.
Entendi tudo.
“Ok, tô sozinha.”
Corri, dancei, pulei, encontrei mais outros dois grupos de amigos, me enturmei num terceiro e fiquei até o último segundo do show.
Cheguei em casa parecendo que tinha corrido uma maratona: descabelada, suada, com os pés em frangalhos.
Mas orgulhosa.
Sim, orgulhosa.
Eu lembro dessa sensação de ponderar se valia a pena “ficar sozinha” incontáveis vezes.
Ali, naquele show, vendo meu amigo andando como se estivesse na calçada de casa sem nenhuma unidade para chamar de amigo do lado, constatei que talvez ele NUNCA tenha vivido esse dilema.
E veja, não estou falando sobre a questão da segurança.
Muitas vezes, ficar sozinha é sim um RISCO para a nossa vida.
Mas e quando esse risco não existe?
O que nos impede de fazermos coisas sozinhas?
O que faz a gente pensar que “não vai poder ir no show porque não tem companhia”?
Acho que tem um tanto de coisa nesse bolo que obviamente tem a ver com a famosa socialização feminina que tanto falamos aqui, claro.
É desconfortável nos sentirmos sós.
É quase como uma sensação de incapacidade.
Como se incapazes fôssemos de sustentarmos a nós mesmas.
Um medo de alguma coisa que nem nome tem.
Talvez das pessoas verem a gente sozinha.
De acharem que não temos amigas.
De sentirem pena de estarmos ali sem uma companhia.
Para qual lugar você já foi sozinha SABENDO que ficaria sozinha?
Quando você comprou o ingresso do show sem torcer para alguém que você conhece ter comprado também?
É maravilhoso andar em rede e ter amigas pra dividir a vida.
Mas penso que nós somos privadas dessa experiência de simplesmente estarmos sozinhas.
De não precisarmos conciliar interesses de ninguém.
Sem precisar se preocupar com a amiga que quer ir ao banheiro, a outra que quer pegar bebida.
Simplesmente fazer o que a gente quer na hora que dá na telha.
“Vou fazer xixi.”
E sair andando em direção ao banheiro sem precisar pedir para ninguém: “Me espera aqui.”
Existe a liberdade que o mundo nos rouba.
Mas tem também aquela que a gente talvez já tenha disponível mas nem sabe que tem.
Não estamos acostumadas com essa liberdade de ir e vir.
Mas eu queria te lembrar que, guardadas as devidas medidas de cautela, ELA TÁ AÍ.
Talvez fosse mais confortável voltar com as minhas amigas na hora que elas não queriam mais ficar.
Talvez até mais seguro.
Mas não é sobre um show.
É sobre sentir que somos capazes de fazer coisas SOZINHAS.
Seja esperar sozinha por 3 horas até o próximo trio elétrico.
Construir uma empresa sem referência do que é certo.
Cuidar de uma criança que saiu de dentro da sua pessoa.
A empresa milionária, a família unida, a equipe que veste a camisa… tudo é criado com o mesmo músculo de esperar 3 horas até o próximo show.
O desconforto de alguém saber que você não sabe o que tá fazendo.
O vácuo de não ter com quem comentar algum pensamento engraçado.
É tudo a mesma coisa, mas em esferas diferentes.
Se tá difícil acreditar que você vai dar conta de fazer qualquer coisa que seja sozinha, ouve tia Mari:
Cata um ingresso para a próxima coisa que você tem vontade de fazer.
E vai sozinha.
A pior coisa que pode acontecer é você terminar me escrevendo uma carta sobre quão libertador foi saber que você pode.
Mesmo sem ninguém do seu lado.