Carta 110
Feminista apaixonada
Por que Mari raramente fala do Sr. Fluido nas redes — e o que feminismo tem a ver com não vender amor como medida de sucesso.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSAS!
Como as senhoritas chegam hoje?
Na carta de hoje vamos conversar de um tema que eu nunca trouxe aqui, no Instagram, em nenhum conteúdo que eu já tenha feito nesses 7 anos para vocês.
Hoje vamos falar de Amor.
Sim, é isso mesmo, eu não endoideci.
Hoje o tema é açucarado.
Vou começar explicando por que essa é a primeira vez que eu vou falar sobre isso.
Quando eu comecei a produzir conteúdo para a Fluida, um dos temas que eu sempre achei engraçadíssimo vocês perguntarem era sobre o Sr. Fluido:
“Mostra o boy para a gente.”
“Ah, não tem foto do namorado?”
“Como ele é?”
Eu juro pelas deusas que já recebi esses directs.
No começo eu não mostrava nada sobre ele simplesmente porque Sr. Fluido é um cara que ATÉ HOJE não sabe como funciona o Instagram.
Vejam bem, ele tem uma conta, mas NUNCA entrou na danada.
Ele me vê fazendo stories e me pergunta:
“Mas amor, por que você fica picando os vídeos assim?”
“Picando” porque ele nota que eu falo, paro, e depois falo de novo.
Ele sequer sabe que os vídeos dos stories são curtos e que a gente posta vários em sequência.
Ou seja, redes sociais não são o forte do meu digníssimo.
Mas, depois de alguns anos nessa bela rede, o não postar coisas sobre ele passou a ser uma decisão decidida.
E eu vou explicar por quê.
Eu me entendo por feminista há mais ou menos uns 10 anos.
Você já parou para pensar no dia que você começou a se AUTOINTITULAR feminista?
Então, DEPOIS que eu passei a falar com mais ênfase sobre feminismo, que eu sou feminista e tudo que vocês já conhecem, incrivelmente a curiosidade das pessoas AUMENTOU sobre o Sr. Fluido.
E eu entendo de onde ela vem:
“Como é que Mari, toda feministona assim, tem um relacionamento de tanto tempo?”
“Como funciona um relacionamento entre uma feminista tão feminista e um homem hétero?”
Esses são os pensamentos que rondam as cabecinhas de todos, quando me veem sendo “feminista” (seja lá o que isso signifique) e descobrem que por trás da feminista tem uma mulher em um relacionamento há 12 anos.
E aí a gente precisa falar sobre isso.
Quando pensamos em uma feminista, o inconsciente coletivo nos diz que ela provavelmente odeia homens, não depila o sovaco e acha brega qualquer demonstração de afeto em público.
Sim, entre nós podemos admitir que, por mais que nos identifiquemos como feministas, ainda mora em nossas cabeças uma imagem um tanto quanto desagradável de como SE PARECE uma feminista.
E isso não é culpa nossa, não. É porque nós SABEMOS que o mundo nos enxerga exatamente assim.
Então, nós, bestas que NÃO somos, com a cautela necessária, evitamos ao máximo sermos comparadas com ESSA feminista do imaginário popular.
Não queremos ser vistas como as mal-amadas,
mal-encaradas,
mal-comidas.
Mas, ao mesmo tempo, ficamos sem referência do que seria uma feminista que ama.
Onde vive?
O que come?
Ama como?
Por muito tempo EU vivi esse “vácuo” de representatividade, se podemos falar assim.
Faz pouquíssimo tempo que falamos abertamente sobre feminismo ENTRE mulheres.
E esse falatório coletivo começou, obviamente, apontando exaustivamente tudo de péssimo que os homens podem ser para as mulheres.
Afinal, é exatamente no amor, e pela urgência de ser amada, que o patriarcado nos pega de jeito.
Aos homens se diz que “ele foi pego pelo estômago”.
Talvez nós sejamos pegas pelo coração.
Não vou mentir que é fácil ser uma feminista emocionada.
Todos os dias somos inundadas com muitas histórias de machos cagados:
- Do marido que não deixa a mulher comprar um curso de empreendedorismo porque, afinal, não vai dar em nada.
- Do outro que deixa a cria no colo da mãe bem na hora da mentoria que ela esperou o mês todo para ter.
- Daquele que RI dos vídeos que ela posta no Instagram e diz que são ridículos.
Eu sei das péssimas condutas masculinas pelo noticiário.
Mas sei também de todos os enormes obstáculos que homens colocam na vida das mulheres porque, surpresa, eu atendo essas mulheres.
Então, é como se eu fosse alimentada diariamente de várias bandeirinhas amarelas e vermelhas me mostrando onde podem estar escondidos os perigos de “se ter um homem para chamar de seu.”
Eu sempre tive pavor tremendo, horrível e ululante de cair em um relacionamento com um cara que não apoiasse meu trabalho.
Que criasse problemas pelas madrugadas viradas gravando criativo.
As dezenas de horas sentada na frente do Zoom.
Mas, a despeito de todas as bandeiras amarelas, laranjas e vermelhas, não foi isso que me aconteceu.
Mas as bandeiras estão lá, todos os dias, gritando na nossa cara nas histórias que ouvimos.
Como é que a gente ignora essas bandeiras sabendo que elas são a maioria?
Como a gente ama o homem do nosso lado, sabendo que o homem do lado da mentorada era um deus grego amoroso apaixonado que ouvia todas as nossas mentorias, largou ela sozinha com duas crianças e foi viver a crise da meia idade com os novos jovens amigos?
Essa conversa sobre feminismo é recente demais.
Ainda estamos descobrindo as armadilhas que os homens colocam para nós.
Não chegamos na parte da história onde eles reconhecem o quão cagados são como classe.
E estamos ainda mais distantes do capítulo onde eles aprendem a amar sem dominar.
Ou seja, não sabemos como coletivo fazer isso:
- Amar mulheres fortes.
- Admirar homens sensíveis.
- Construir relacionamentos justos.
Devemos estar a uns 2 séculos ainda desse momento.
O problema é que eu e você não temos 2 séculos para esperar.
Estamos agora, neste exato momento, nos relacionando com portadores de pênis, descobrindo todas as armadilhas que já caímos, tentando construir relações justas, com medo de sermos feitas de trouxas mais uma vez, mas ainda assim com um profundo desejo (humano, diga-se de passagem) de amar e ser amada.
Como é que faz essa porra, gente?
Nós não sabemos.
Estamos fazendo sem saber.
Mas o que tudo isso tem a ver com não ter milhares de vídeos fofinhos com Sr. Fluido no feed?
Bom, nessa linha tênue entre amar, ser amada e, ainda assim, exercer todos os feminismos que ainda descubro que precisam ser desenvolvidos em mim, mora também outro troço.
O cuidado com a urgência de ser escolhida por alguém que nos ame.
Todas nós aprendemos que nosso maior sucesso é, enfim, ser amada.
Conscientes ou não disso, nós DESEJAMOS sermos AS escolhidas por alguém.
Aí que entra o marketing e as redes sociais.
A base de todo marketing é saciar desejos ou aplacar dores.
Todo produto nasce daí.
E, sabendo que o desejo mais ardente de nós mulheres, o motivo de dor excruciante que deixa a gente na fossa, é NÃO ser amada, os produtos voltados para mulheres exploram muito bem essa ferida.
Eu comecei a reparar que as mentorias, cursos e Instagrams voltados para o empreendedorismo feminino sempre traziam essa narrativa acessória:
“A mulher que tem sucesso e, ainda assim, é amada.”
O carro, a plaquinha de faturamento e o anel de noivado no dedo.
O time, o saldo da Eduzz e as viagens surpresa que ele fez.
E essa narrativa me incomoda.
E muito.
Porque sutilmente ela reforça a ideia de que sucesso é o combo DOS DOIS, porque é difícil amar uma mulher de sucesso.
“Dá para ter sucesso AND ser amada.”
Sim, é claro que isso é possível.
Mas, num nível mais profundo, nós estamos sutilmente reforçando a ideia de que:
Mulheres de sucesso são DIFÍCEIS de serem amadas.
E então, exatamente por isso, é um sucesso DO CARALHO ter um homem do seu lado ENQUANTO você escolhe abrir uma empresa.
Percebe que, no final das contas, o que a gente tá fazendo é mostrar MAIS UMA VEZ para as mulheres que ser boa em QUALQUER OUTRA coisa que não seja cuidar do lar, a torna mais difícil de ser amada PELOS HOMENS?
“Nossa senhora, que coisa incrível, Mari, que o seu boy apoia o seu trabalho.”
Sim, é incrível.
MAS NÃO DEVERIA.
E mora aí meu desafio em mostrar um relacionamento que, para mim, é o que chamam de “sucesso”:
Sem reforçar na cabeça de vocês que é isso que vocês devem desejar.
Eu não quero fazer coro a essa narrativa.
Eu não quero que você me tenha como referência porque eu consigo empreender E ser amada.
Eu sequer quero que ser amada seja um problema na sua vida.
Mas eu sei, e vivo, e me lambuzo no amor que construí com um espécime da classe que nos oprime.
Entende o dilema?
Como mostrar que eu tenho um relacionamento que eu cuido, me preocupo e cultivo há mais de uma década sem usar isso para esfregar na sua cara que, se você ainda não tem um, você não alcançou o sucesso completo?
Como mostrar meu lado mais brega, fofo e apaixonado sem exaltar feitos do Sr. Fluido (que deveriam ser comuns a todos os homens) como extraordinários?
Sem que as pessoas achem que um homem que me traz água durante uma mentoria é um DEUS grego por fazer o mínimo?
Ainda que, para mim, isso seja o máximo?
Eu não sei.
E por não saber, eu venho decidindo não fazer.
Eu decidi não engrossar o coro de quem vende amor como meta de vida.
Ainda que eu acredite genuinamente que boa parte das mulheres que o faz, faz sem saber.
E é por isso, senhoras e senhoras, que eu raramente mostro nas internets o Sr. Fluido e o que vivemos juntos.
E se você já me perguntou isso no direct, agora consegue entender por que eu não te dei uma resposta.
Simplesmente o que eu trouxe até aqui não cabe num direct.
Eu tenho uma responsabilidade, talvez excessiva, com o tipo de referência que eu crio para vocês.
Eu de verdade PENSO em como cada coisa que eu posto, falo e digo pode ajudar ou atrapalhar vocês, seja pontual ou mais globalmente.
Mas hoje, uma vez que alinhadas estamos sobre o que eu penso sobre vender amor como medida de sucesso, posso então ser aqui a feminista apaixonada que talvez vocês não saibam que existe.
Agora, que todos os disclaimers foram feitos, eu posso exaltar meu exemplar de homem com vocês.
Então, se preparem para a melosa espessura de um amor de 12 anos.
Eu vou te contar uma história que nunca contei para ninguém.
Vocês serão as primeiras.
É um pequeno pedaço da história de uma feminista apaixonada. (continua…)
Lá no começo da minha vida como empreendedora, onde eu, assim como todas nós já fomos, era completamente insegura sobre minhas habilidades.
Quando eu não tinha a menor ideia se seria capaz de dar conta de uma empresa.
Quando eu questionava todas as minhas habilidades a cada segundo.
Fui eu fazer um curso de negócios.
Nesse curso, você literalmente tinha que abrir uma empresa e botar ela pra vender em uma semana.
Eu escolhi a ideia de negócio, o produto e a narrativa.
Tudo se encaixava na minha cabeça e eu conseguia VER que seria um sucesso.
Porém, para dar certo, eu precisaria desembolsar 2 mil reais para comprar o estoque do bendito produto.
2 mil reais para uma desempregada, que estava consumindo suas reservas para empreender, era MUITA coisa.
Eu passei uma noite em claro tentando criar coragem para investir parte da minha reserva no estoque de produtos da ideia de negócio que eu queria criar.
Ruminei muitas e muitas horas a possibilidade do fracasso:
“O que eu vou fazer se der errado?”
“Eu vou ser irresponsável de ter queimado minha reserva para fazer um curso?”
“Não dá para eu ficar brincando com dinheiro assim.”
E se seguiram horas de desespero.
Não tem outra palavra para isso.
Eu suava, literalmente.
Depois de uma noite virada nesse suplício, Sr. Fluido me liga e diz:
“Amor, compra o estoque. Eu vou investir, se der errado o prejuízo é meu.”
Absolutamente todos os meus problemas se resolveram naquele segundo.
Veja, eu tinha o dinheiro, e ele sabia.
Não era da grana que eu precisava.
Eu, carente da minha autoconfiança, precisava pegar emprestado essa confiança de alguém.
E ele, antes de mim, percebeu o que eu precisava.
Eu pensei:
“Cara, se ele tá disposto a arriscar o dinheiro dele, é porque ele acha que vai dar certo.”
E comprei o estoque.
No final das contas, tomamos prejuízo de mais da metade dessa grana (risos kk), mas a coisa mais importante que eu aprendi ali é que eu consigo fazer sozinha coisas arriscadas.
Que, às vezes, eu não sei como vou resolver um troço, mas eu DAREI um jeito.
Ironicamente (ou não), o primeiro a acreditar em mim mais do que eu mesma foi um homem.
Um que, apesar de todas as bandeiras vermelhas que eu literalmente estudo todos os dias, segue plantando minha vida com enormes retângulos de tecido verde esvoaçante.
Hoje, sim, exaltarei um homem.
E, fazendo isso, espero que, ainda que VOCÊ NÃO PRECISE DE UM DE MANEIRA ALGUMA PARA SER FELIZ, você possa viver o amor e o sucesso.
Não porque você encontrou um homem que “aceita” o seu sucesso.
Não porque você ganhou na loteria com um que não sabota seu crescimento.
Mas que, talvez, justamente por você ser tão foda, tão empresária, tão dona dos CNPJs tudo, ele saiba que tem uma puta sorte de ter você do seu lado.
Amemos e lucremos.