Carta 109
Agridoce
Sobre o sabor dúbio de ser para as outras o que ninguém foi para você — e a coragem silenciosa de quem constrói sem referências.
Buenas tardes, Maravilhosas do País Fluida
Como a senhorita chega hoje nessa última sexta de novembro?
Amanhã, eu e Sr Fluido fazemos 12 anos juntos.
Sim, talvez você não soubesse dela, mas acho que esse tema amor/relacionamento/tananananaaan deixarei para a próxima carta.
Hoje eu chego com um gostinho agridoce na boca, e é sobre ele que quero conversar com vocês.
Se você acompanha as cartas há mais tempo, sabe que eu tenho uma listinha de pessoas importantes que quero encontrar ao longo do ano.
Toda vez que abre uma brecha inesperada na agenda, eu pego essa listinha e tento (pois pessoas 30+ têm a agenda mais difícil que o papa) marcar um encontrinho com alguém.
Ontem foi um desses dias. Mandei mensagem para uma amiga querida e marcamos um bolo de chocolate com café.
Tínhamos uma hora e meia para todo o ritual fofoquístico.
1:30 é melhor que nada.
Como já estamos acostumadas a encontros relâmpagos, onde temos que nos atualizar da vida da outra na velocidade da luz, já fomos começando:
“Vai, amiga, me conta as suas novidades e depois sou eu.”
Fala daqui, fala de lá, conta do relacionamento, da saúde, da família, dos amigos e, claro, do negócio.
Chegamos na parte do negócio.
Essa amiga hoje é concurseira, mas, num período tão, tão distante, também foi empresária (e ela tá muito feliz com isso, acredite). Bom, desde sua saída do mundo da PJ, ela ficou sem acompanhar as reviravoltas de Dona Fluida.
No tópico “Fluida” começamos o interrogatório:
“Como que tá o time, amiga?”
“Vocês ainda vendem tal produto?”
“E os lançamentos, ainda dão bom?”
“O que tá rolando no mercado?”
Em meio a alguma coisa que eu estava falando da Fluida, ela solta um gritinho:
“Ahhhh, amiga, tô muito feliz!”
Eu, sem entender muito (ela se maquiava para o compromisso em sequência que tinha, achei que tinha a ver com o belíssimo blush que ela tinha acabado de espalhar na cara), pergunto:
“Uai, amiga, por quê?”
“De ver que você deu certo.”
BUM.
Socão na cara.
Eu dei certo.
Sirenes soando nos ouvidos.
As palavras em espiral se repetindo:
“EI CARALHO, EU DEI CERTO.”
O assunto continuou e eu fui com o fluxo da fofoca, afinal tínhamos alguns parcos minutos para terminar as pautas do dia.
Vim para casa, ela foi para o compromisso dela, e como já é habitual entre minhas amigas, a gente continua a conversa na modalidade EAD depois da modalidade presencial.
Mandei uma mensagem para ela com reflexões sobre o que a gente tinha conversado e contando para ela sobre uma meta recente que conquistamos na Fluida e que eu ainda não tinha tido tempo de comemorar.
Ela me responde com um textão + um áudio com suas sábias reflexões.
Num trechinho desse áudio ela diz:
“Amiga, tu tem noção que você construiu isso sozinha?”
Eu mentalmente respondo:
“Sozinha, sozinha não… mas entendi o que você quer dizer.”
Ela continua:
“Eu sempre senti falta de uma referência de sucesso na minha profissão, para eu seguir, sabe… Isso é muito solitário. Sei como foi para você também.”
Nesse momento começa-se formar um ambiente aquoso no cantinho do meu globo ocular.
Ela continua exaltando cada feito da Fluida que eu tinha contado pra ela no dia anterior, cada perrengue que ela me viu passando e tentando resolver baseada em “vozes da minha cabeça”…
E lá para o minuto 3 do podcast via WhatsApp, me solta essa:
“Você é na vida das outras pessoas o que ninguém foi na sua.”
Ambiente aquoso criado com sucesso.
Podem vir lágrimas, que isso merece.
Leia agora isso escrito de outro jeito:
Você é para outras pessoas, o que ninguém foi para você.
Eu já contei incansáveis vezes que eu criei a Fluida porque EU precisava de uma Fluida PARA MIM.
Eu procurei referências de mercado com as quais me identificasse.
Um lugar para pertencer.
Uma referência em que me inspirar.
Eu não achei esse lugar.
Tudo me parecia incompleto, frio demais, verdadeiro de menos.
Criei a Fluida justamente porque eu NÃO tive uma rede para chamar de minha quando comecei.
Racionalmente eu sei disso.
Tanto sei que já contei isso para vocês várias e várias vezes.
Mas talvez, nesses 7 anos de Fluida e mais de 10 empreendendo, tenha sido a primeira vez que eu entendi de verdade o que significa isso:
“Ser para os outros o que ninguém foi para você.”
É um sentimento dúbio.
Eu não sinto que tenha feito nada demais.
Mas eu SEI que fiz.
É como se eu não tivesse outro caminho a seguir que não esse, então ele não me parece um exercício de coragem e fé.
E sim de necessidade.
Quase como se de verdade, era isso que eu ia fazer e pronto.
Mas paradoxalmente, eu vejo todos os dias a transformação REAL que mulheres vivem aqui dentro.
Eu comemoro os dígitos feitos.
As síndromes do “eu não sou boa o suficiente” sendo eliminadas na base da chinelada.
As tão merecidas férias sendo desfrutadas depois de 7 anos sem sair da mesma cidade.
Eu vivo todos os dias a enxurrada de transformações faraônicas na vida dessas mulheres.
Faraônicas não porque são necessariamente tão grandes que podem ser vistas do espaço a olho nu.
Mas porque elas mudam para sempre QUEM essas mulheres são.
Não é gostoso criar coisas sem referências.
É solitário.
Frio.
Enlouquecedor às vezes.
SOZINHA.
É essa sensação.
Andar num túnel escuríssimo, no mais absoluto silêncio, sem nenhum norte de para onde você deveria ir.
Não tem ninguém vendo o que você acredita que vê.
E quem você acha que está alguns passos na sua frente reage com confusão às suas ideias.
Eu não QUIS construir a Fluida sem referência, sem guia, sem norte.
Eu não quis.
Eu só não encontrei isso no meu caminho.
Mas talvez, por isso, eu tenha desenvolvido tanta fé em mim mesma.
Eu não me SINTO corajosa no dia a dia fazendo o que tem que ser feito.
Eu me sinto às vezes confusa, cansada, e muitos dias meio doida.
Mas depois de um tempo, olho para trás e quase não reconheço a Mariana que fez tudo aquilo.
“Caralho, minha filha, como é que você deu conta disso?”
Percebo uma meta batida num período cheio de desafios e enuncio para mim mesma:
“Porra, tu foi ousada de fazer isso aí, não foi não?”
Eu não me sinto corajosa ENQUANTO faço coisas corajosas.
Mas DEPOIS eu consigo entender que inúmeras vezes um contingente considerável de pessoas teria desistido quando eu não desisti.
Eu não desisti.
De mim.
Da Fluida.
De vocês.
Eu fui corajosa para caralho.
Falar de feminismo em um mercado que mal mal respeita o empreendedorismo “feminino”.
Matar meu produto principal e 2 anos depois ter quadruplicado de tamanho.
Insistido em “vender a minha hora” quando todo mundo só fala de escala.
Batido o pé para contratar só e somente só mulheres mesmo quando chegavam listas de indicações de pessoas com próstatas prontas para resolver meu BO.
Eu fui corajosa.
Sem saber que eu tava sendo.
E ser corajosa sem saber que eu tava sendo me botou aqui.
“Ser para os outros o que ninguém foi para mim.”
Talvez empreender sendo uma mulher seja essa exata definição.
Criamos coisas que nós gostaríamos de ver no mundo.
Desenhamos serviços que teriam sido a nossa salvação nos momentos de desespero.
Produzimos entregáveis que desejávamos ardentemente encontrar quando mais precisamos.
Mas feliz, ou infelizmente, nada disso é para nós.
Viu como é dúbio?
Talvez seja parecido com o que os pais falam sobre “dar para os filhos o que eu não tive”.
Essa sensação de “que pena que eu não tive” misturada com “que bom que ele tem”.
É doce e azedo.
Amacia e pinica.
Espeta e abraça.
Ser o que ninguém foi para nós exige coragem.
Exige que a gente tenha uma fé às vezes delirante em nós mesmas.
Mas também nos entrega isso:
Um áudio no meio de uma quinta-feira te dizendo:
“Você deu certo.”
Que nós, todas nós, que não tivemos o que quer que seja, continuemos entregando tudo aquilo que a gente não teve.
E saboreando o açucarado sabor de que pelo menos agora, alguém tem.
Obs: Um obrigada a todas as amigas que, como mais essa, me empurram para mais perto de mim mesma. Obrigada por isso.