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Carta 107

Bolinhas Giratórias

A história por trás de um massageador com esferas giratórias — e o que ela revela sobre os desejos que a gente posterga sem motivo.

Reflexões duvidosas

Buenas tardes, maravilhosa!

Como a senhorita chega hoje nessa sexta de feriado?

Eu estou sentadinha no meu sofá, de pijama, meias de vovó e recebendo uma massagem deliciosa nos pés.

O Sr. Fluido faz massagem em mim com certa frequência, mas dessa vez não é ele quem está desempenhando tal função.

Eu comprei uma almofada massageadora para mim.

Ela esquenta, tem infravermelho e quatro bolinhas que giram em todos os sentidos para simular belas mãos capacitadas para desembolar todos os nós de tensão causados pelas 29 mil decisões que uma empresária toma em um dia.

Hoje, eu vou te contar a história por trás desse massageador (calma que fará sentido).

Eu AMO massagem.

Não aquelas veias fofinhas que mais parecem um carinho.

Eu gosto daquelas que parece que a pessoa põe 2kg de pressão em cada ponto das suas fibras musculares.

Que ela esmaga o músculo e, junto com ele, dissolve todas as tarefas pendentes.

Aquela firme, rápida, forte, tão forte quanto a dor de cabeça quando o custo por lead sobe.

É dessa aí que eu gosto.

Sr. Fluido, coitado, sofre, pois acredita piamente que vai me quebrar no meio se me massagear com a pressão que eu solicito.

Ele fica o tempo todo: “Vai machucar, amor, tá bom já de força.”

E eu, completamente tomada por um espírito obsessor do relaxamento, expresso a plenos pulmões:

“Aperta maaaaais!”

Não funfa.

Eu fico querendo uma massagem crossfiteira.

Ele fica morrendo de medo de me machucar.

Eis que, há alguns anos atrás — vários, para ser exata — popularizou-se esse troço de fazer massagem em casa.

Antes disso, só tinha massagem em spa e na cadeirinha da Smart Fit, kkk.

Às vezes, eu ia malhar só pensando na massagenzinha no final. Bons tempos.

Bom, desde que esses troços começaram a aparecer nas lojas, eu falo: “Nossa, preciso de um desses.”

Passamos por uma loja e eu digo: “Meu Deus, eu ia amar essa massagem todo dia.”

Estamos no YouTube vendo um besteirol juntos e lá vem o anúncio do tal massageador.

Eu, novamente, expresso todo o meu contentamento CASO eu tivesse um.

Semana passada, fomos ao mercado comprar caixas organizadoras (sim, a doença da organização é algo que deve ser difundido inclusive no ambiente doméstico. Não pensem vocês que eu obrigo só vocês a botarem ordem no negócio. Em casa, eu também obrigo).

No caminho para o mercado, passamos por uma farmácia.

Vejo uma plaquinha amarela que diz:

“Promoção Black Friday - Massageador 179 reais.”

Meus olhos brilham.

Estava ali, ao alcance das minhas mãos, o Santo Graal do relaxamento.

Virei para o Sr. Fluido e disse: “Amor, olha aquele massageador que eu queria, tá na promoção.”

Ele, muito sensatamente, vira para mim e diz:

“Mas tá na promoção mesmo? Ou é aqueles golpes de Black Friday?”

Eu não sabia dizer.

Faltavam 20 minutos para o mercado fechar e precisávamos das danadas das caixas.

Olhei para o meu desejado (o massageador, não o Sr. Fluido) e pensei: “Depois a gente vê isso.”

E fomos os dois comprar as benditas caixas.

Voltamos para casa, dias se passaram, e eu continuei pensando no meu objeto de desejo.

“Ah, seria incrível uma massagenzinha agora, né?”

Durante uma mentoria, eu pensava: “Humm, seria uma delícia dar mentoria com esse troço nas costas.”

E eu fui vivendo os próximos dias desejando a massagem gostosinha, o calorzinho aconchegante que ele proporciona e todos os benefícios da terapia magnética (seja lá o que isso signifique???) que ele diz proporcionar.

Passei 4 dias pensando no troço.

Eis que um estalo percorre meus neurônios:

POR QUE CARALHOS EU AINDA NÃO COMPREI ESSE TROÇO?

Grito para o Sr. Fluido, que se encontra no cômodo ao lado:

“Amor, quando eu terminar minha mentoria, vamos lá na farmácia comprar o massageador comigo?”

Ele me olha com um olhar meio espantado e diz: “Uai, amor, assim do nada? Quase 10 horas da noite?”

Sacudo a cabeça que sim.

Ele completa: “Tudo bem, vou me arrumar.”

Termino a mentoria, calço o sapato, entramos no carro e nos dirigimos até a farmácia.

Vejo com meus olhos o reluzente dissolvedor de problemas.

Sr. Fluido percebe a euforia em minhas dilatadas pupilas e solta: “Estranho você querer comprar esse negócio de repente. Não é uma compra de impulso, não, amor?”

Lembro que meu estimado objeto de amor (o namorado, não o massageador) é mestre em economia, senhor das planilhas e trabalha com orçamento.

Para ele, se levantar às 9 horas da noite, já tendo feito seu escalda-pés, para comprar um massageador numa loja que fechará às 10 horas, sem ser capaz de esperar o dia seguinte, só pode ser fruto de uma decisão pouco ponderada.

Ouço do outro lado do balcão…

“Pode aproximar.”

Passo o cartão e plim: ele é meu.

Inteiramente meu.

Corro para casa, ligo o troço na tomada e passo os próximos minutos encostando o massageador em todas as superfícies corporais musculares que consigo lembrar das aulas de anatomia.

Enquanto me esparramo na cama ao som de “Nossa, esse é ótimo” e “Aqui na lombarzinha, ó, maravilhoso,” Sr. Fluido me observa calado.

Viro para ele e digo: “Deixa eu colocar em você, que você vai gostar também.”

Encosto o troço em todos os músculos de Sr. Fluido que antes tinha testado na minha pessoa.

Ele não emite nenhum som.

Nem um suspirinho.

Eu, sem entender nada, tento desesperadamente arrancar dele o frenesi que eu mesma vivia por finalmente ter massagem ao toque de um botão.

Pergunto para ele: “De zero a 10, que nota você dá para essa massagem?”

Ele pensa uns segundos e responde:

“Seis e meio.”

E meio.

Meu mundo cai.

“Como assim seis e meio??? Isso aqui é um 10, quiçá um 12 numa escala de zero a dez.”

Ele explica que gostou, que é legal, por isso é 6,5.

Pego meu massageador novinho em folha e me recolho na minha própria bolha de felicidade e frustração.

Começo a pensar que Sr. Fluido talvez tenha um parafuso a menos.

Ou talvez eu tenha colocado o troço nos lugares errados de sua bela anatomia, e por isso ele não gostou tanto assim da massagem idílica que eu mesma experimentei segundos atrás.

Mas resolvo pensar tudo isso depois. Agora, eu só quero desfrutar das relaxantes esferas de metal que se revezam espremendo os músculos da minha cervical.

Durmo com o troço na cabeceira.

Acordo e venho escrever essa carta para você.

Até agora, você deve estar se perguntando: “Cara, que tipo de psicotrópico Mari tomou para decidir escrever uma carta inteira sobre uma almofada com esferas giratórias?”

Se você é uma leitora mais antiga, já deve estar acostumada com assuntos esdrúxulos nas cartas da sexta.

Então, se acalme que prometo que fará sentido.

Bom, vamos a ele então.

Eu devo já ter feito para a base umas 4 horas de massagem nas últimas 12 horas em que estou de posse desse objeto, sendo que dessas 12, eu dormi umas 8.

Faça as contas.

Cada molécula do meu corpo está sorrindo de orelha a orelha nas últimas 12 horas.

Míseros 179 reais foram capazes de gerar mais endorfina do que isenção de imposto em cima da divisão de lucro.

Eu SABIA que amaria ter um troço desse.

Conseguia me visualizar esparramada no sofá por horas a fio tendo meus pés massageados.

Eu desejava imensamente a pressão direcionada na minha desgastada lombar.

Você mesma já deve estar se perguntando: “Mas Mari, por que você não comprou esse trem antes?”

Nas últimas 12 horas em que só penso sobre o danado do massageador, eu tive tempo suficiente para chegar a conclusões que quero dividir com você.

A verdade é que eu não tenho uma resposta curta para isso.

Então, vamos discorrer juntas em uma resposta não tão simples assim.

Todas nós, mulheres, já vivenciamos essa palha assada em algum momento das nossas vidas.

A gente deseja coisas, visualiza cenários para o nosso futuro, passa anos querendo algo.

Mas, por algum motivo,

Não passamos o cartão.

Não gastamos os 179 reais.

Projetamos a felicidade que teremos quando tal conquista for alcançada.

Vivemos o orgulho antecipado de ter ido atrás daquilo que queríamos.

Mas, por algum fucking motivo, não fazemos nada para isso.

De repente, temos um estalo.

Tiramos o pijama.

Calçamos o sapato e nos dirigimos à loja que fecha em menos de 30 minutos.

Como num rompante de insanidade, queremos aquilo para hoje.

Não para daqui a uma hora, tem que ser agora. Imediatamente.

Não sabemos por quê.

Simplesmente queremos agora.

Passamos o cartão.

E, finalmente, desfrutamos daquilo que sempre soubemos que deveria ser nosso.

Para quem está do lado de fora, parece do nada.

Tal qual Sr. Fluido, as pessoas à nossa volta olham e pensam: “Isso aí não é só um impulso, não?”

Sim. É.

Talvez as deusas da evolução tenham percebido que o mundo faria com que nossos desejos fossem tão postergados que decidiram nos paramentar com impulsos descabidos, que vêm do mais absoluto nada para compensar.

Talvez nossas células apenas se cansem da ladainha que hablamos para nós mesmas dizendo “QUANDO eu conseguir tal coisa…” e disparem uma corrente elétrica imparável nas nossas pernas para levantarmos o traseiro do sofá e irmos atrás do troço desejado.

Eu não sei a origem desse “impulso.”

Mas eu sei que, muitas vezes, a decisão muito rápida que as pessoas estão vendo do lado de fora nada mais é do que um desejo que já foi maturado, curtido, virado e desvirado por mais anos do que gostaríamos dentro de nós mesmas.

Eu não sei se você tem desejado um massageador com esferas giratórias ou talvez a queda do patriarcado.

Se você aspira dar um pé na bunda de um funcionário meia-boca ou faturar um milhão.

Eu não sei quais são as esferas giratórias que ocupam seus miolos.

Mas eu estou aqui para te dar um péssimo exemplo:

Põe o sapato.

Grita para o Sr. ______ (insira aqui seu sobrenome) ou qualquer outro ser que divide a vida com você, que vocês vão agora adquirir o objeto dos seus desejos.

Não amanhã, não semana que vem.

AGORA.

Sai correndo para a loja.

Peça para não abaixarem as portas enquanto você, esbaforida, adentra o recinto que fechará em breve.

Passa no débito.

Mas, pelo amor das deusas, leva as bolinhas giratórias para casa.

Elas sempre foram suas.

P.S.: Essa não é uma carta sobre bolinhas giratórias.

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