Carta 106
Viramos estatística
A Fluida virou objeto de estudo de mestrado na FGV — e isso é muito maior do que parece. Pela primeira vez, as histórias das empresárias feministas virarão dados, gráficos e dissertação científica, porque a Loiane decidiu que vozes da cabeça não eram suficientes.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSAS!
Na carta de hoje, vou dividir com vocês uma novidade que estou há algum tempo guardando para poder contar.
Ela não é sobre dígitos, faturamento ou metas batidas. Então, não, pelo menos hoje não comemoraremos dinheiros, mas comemoraremos juntas algo que talvez seja ainda melhor do que isso para as empresárias que virão depois de nós.
Comecemos.
Para você entender o quanto essa conquista significa para todas nós aqui na Fluida, vou te explicar um pouco do que vivemos quando quisemos criar a Fluida.
Quando comecei a empreender, uma das primeiras coisas que fiz foi me inscrever em absolutamente todos os cursos, consultorias, palestras e tudo o mais que falava sobre empreendedorismo.
Eu me sentia uma criança entre gigantes e queria absorver tudo o que pudesse.
Em várias dessas formações, eu fiz, repetidas e incansáveis vezes, pitchs e mais pitchs, tentando explicar o que viria a ser a Fluida.
Devo ter feito mais de uma centena deles, sem brincadeira.
Pitch para ganhar investimento, pitch para conquistar um mentor, pitch para ser sabatinada por uma banca à procura de falhas na minha ideia de negócio.
Mas em todas as bancas que participei na minha vida, sempre ouvi que “faltavam dados”.
Que a “história que eu contava era bonita, mas não parecia existir uma dor real de mercado”.
Além do clássico “mulher não tem mindset empreendedor”, já ouvi coisas como:
“Não existe diferença entre mulher e homem empreendendo, não sei por que você vai criar isso.”
“O Sebrae faz exatamente o que você quer fazer, só que de graça. Por que alguém pagaria para você?”
Em alguns deles, além do enorme balde de água fria que eu já estava acostumada a receber, vinham de brinde algumas sutilezas como…
“Eu acho que primeiro você tem que aprender a fazer isso aí que você quer vender para você mesma, porque ninguém consegue nem entender a sua ideia de negócio.”
Muitas vezes, o “feedback” era apenas uma embalagem bonita para um certo desprezo pelas minhas capacidades.
Quando eu escrevo essas frases aí em cima, não estou puxando elas só da minha memória, eu tenho todos esses pitchs gravados.
Eu sempre pedia para alguém gravar para que eu pudesse assisti-los de novo e ver onde EU estava errando.
E eu via esses vídeos incansáveis vezes, pausava, anotava, dava play e ajustava o roteiro para no próximo “fazer melhor”.
Pitch após pitch, o retorno geral era, em suma, mais ou menos isso:
“Você está tirando dados do nada; ninguém acredita em nada do que você está dizendo.”
Eu pesquisava incessantemente na internet dados confiáveis sobre empreendedorismo feminino.
Catava tudo o que via pela frente e fazia longos dossiês para os meus mentores.
Eles liam e repetiam o rosário:
“Falta validação.”
Nessa época, a ingenuidade me protegeu; eu realmente acreditava neles, achava que eu precisava de mais dados estatísticos para provar que conseguiria vender o que, pasmem, eu já vendia.
Sim, eu já atendia só mulheres, com um time só de mulheres, já dava consultoria, mentoria, e ainda que eu trouxesse todos os dados de vendas da Fluida, eu não tinha a porra dos dados “estatísticos” que os mentores queriam para dizer que minha ideia tinha “validação”.
Digo que a ingenuidade me salvou porque hoje consigo ver a loucura desse cenário.
Eu precisava buscar dados para provar aos mentores que mulheres queriam comprar formações empreendedoras em ambientes exclusivamente femininos; essa era a tese.
Só que eu já ESTAVA FAZENDO ISSO. Eu precisava de uma porra de uma teoria para validar o que eu JÁ VIVIA no mundo real.
A Fluida foi crescendo, e eu fui me desvencilhando da necessidade de me provar para aquelas pessoas.
Por que eu precisava provar para um monte de macho de terno o que as mulheres queriam de verdade?
Era óbvio e escancarado o fato de que, em qualquer formação de empreendedores, a maioria é sempre masculina.
Mas queriam que eu trouxesse dados.
Mandei a machaiada catar coquinho e me voltei para elas, para nós.
Bom, mas essa inquietação sobre a porra dos dados nunca me abandonou. Eu achava que, ainda que eu não tivesse mais que provar nada para mentor nenhum, eu QUERIA ter dados que provassem o que eu vivia no dia a dia.
Eu sei quais são as barreiras emocionais que impedem mulheres de crescerem com suas empresas.
Sei o que elas sabem ou não sabem sobre gestão, finanças e produto.
Conheço melhor do que a palma da minha mão onde elas sentem medo de falhar.
Eu sei, não por conta dos livros que li,
Mas principalmente pelas milhares de horas (literalmente) que passei ouvindo essas mulheres.
Milhares de horas.
De mentorias, consultorias, aulas, hotseats, plantões de dúvidas, palestras, rodas de conversa.
Eu OUÇO essas mulheres.
São pelo menos 7 anos só de mentoria individual.
São 3 anos de Vênus.
2 anos de Conselho.
Mais de uma centena de empresárias formadas pelo Empreender Sem Enlouquecer.
Mais de uma centena de empresárias que eu PESSOALMENTE mentorei.
Com as minhas nádegas na cadeira, ouvindo cada uma delas por 1, 2 horas, quinzenalmente, por 3, 6 meses.
Eu tenho empresárias comigo há 5 anos.
Eu sei a realidade do que cada uma delas passa.
Mas nada do que eu sei existe para o mundo.
O mundo quer dados.
Gráficos.
Metodologia científica.
Algo para que ele possa acreditar que nós falamos a verdade quando falamos de nós mesmas.
Até hoje.
Eu tive que escolher entre acreditar “nas vozes da minha cabeça” mais do que nos dados dos artigos publicados.
Sabe por quê?
Porque o primeiro artigo publicado no Brasil com metodologia científica sobre empreendedorismo feminino é de 2012.
Tem 12 anos.
Talvez você tenha um gato que seja mais velho do que isso.
2012 é ontem.
Esses dados não estavam disponíveis para mim.
Eu acreditava nas vozes da minha cabeça e usaria elas para ir para a prática ou passaria anos tentando criar a teoria para aí então ser acreditada.
Escolhi o caminho da prática e fui construir a gestão feminista com o que eu sabia que eu sabia.
É muito difícil você falar sobre algo que as pessoas desconhecem.
Que não tem livros explicando, que ninguém entende nem o nome.
Gestão Feminista.
Que caralhos é isso?
Literalmente é algo que existe só na minha cabeça.
Não existe um único livro sobre isso.
Zero.
E eu precisei acreditar que esse corpo teórico precisava ser criado, mesmo que ele ainda não existisse para o mundo.
Mas essa história está prestes a mudar.
Nós vamos virar dissertação de mestrado.
A Fluida, nesse momento, é objeto de estudo de caso de um mestrado pela FGV.
Sim, minhas amigas, a FGV aprovou uma tese de mestrado sobre o impacto da Fluida como rede de empreendedorismo na vida das empresárias.
Isso é enorme, e eu vou te explicar por quê.
Nós, mulheres, como grupo, não sabemos a nossa história.
Ninguém nos diz que nossa dificuldade com dinheiro está linkada ao fato de que A GENTE PEGOU NA PORRA DO DINHEIRO MUITO DEPOIS QUE OS HOMENS.
Não sabemos que tem nem 100 anos que a gente pode ter conta no banco.
Não colocam nos livros de história que temos medo de liderar porque mulheres líderes eram queimadas na fogueira.
A gente não sabe da nossa história.
E como não sabemos, somos empurradas a repeti-la por décadas e décadas com avanços minúsculos porque não sabemos de onde estamos vindo.
É a ignorância sobre nossos talentos, nossas lutas e todas as sabotagens históricas que vivemos que nos prende, muitas vezes, em ciclos de pobreza, vergonha e culpa.
Não saber sobre nós é o que nos aprisiona.
Eu desisti de tentar provar para o mundo, em dados, o que eu já sabia.
Mas a Loiane não.
Você não sabe quem é a Loiane, mas eu vou te contar.
Loiane é a mulher que, assim como eu lá atrás, começou a pesquisar sobre empreendedorismo feminino e não encontrou nada.
Pesquisa daqui, vasculha de lá, e somente dados superficiais.
Mas Loiane decidiu que vozes da cabeça não eram suficientes.
Ela decidiu enfrentar a “falta de dados”, o “não tem validação suficiente” e quebrar esse ciclo.
Não sem antes, é claro, enfrentar as mesmas resistências que eu enfrentei:
“Como você vai fazer uma pesquisa sem bibliografia prévia?” “Não temos estudos conclusivos sobre isso.”
Sim, nós não temos.
Mas absolutamente tudo que hoje tem pesquisa, um dia foi um campo sem porra nenhuma.
Um dia (um homem, claro) decidiu que a gravidade existia, que as células deveriam ter DNA dentro delas, que o marketing é um troço com nome e sobrenome.
Eles estudaram o que não existia, e porque eles fizeram isso, agora as coisas existem.
Aos homens é dada a faculdade de inovar.
A licença poética para estudar o que “não existe”.
A nós, essa licença não se aplica.
Mas se ninguém pode estudar a nossa história simplesmente porque ela nunca foi estudada, quando é que existiremos?
A resposta é: nunca.
A Loiane decidiu começar a nossa história.
Neste momento em que te falo, várias de nossas mentoradas e alunas já foram entrevistadas pela Lo.
Suas histórias estão virando dados.
Números.
Gráficos.
Em breve nós, pela primeira vez na história, existiremos de verdade para o mundo.
As próximas mulheres poderão fazer suas pesquisas, seus negócios e receber seus investimentos COM DADOS.
Pelo menos essa desculpa o mundo vai ter que parar de dar para nos impedir de ocupar os nossos lugares.
Pelo menos esse obstáculo começa a ser removido hoje.
Em breve nós seremos dissertação de mestrado.
Referenciada por uma banca.
Validada por uma instituição.
Com o selo “homi atesta” de qualidade.
Nós não precisamos disso de verdade para sabermos quem somos.
Mas elas, as mulheres que virão depois de nós, serão gratas por termos deixado o caminho delas mais fácil.
Hoje fazemos juntas história.
Eu segui sem dados.
Loiane decidiu documentá-los.
Nossas Fluidas SÃO os dados que provam que sim: nós somos boas para caralho empreendendo juntas.
A carta de hoje é um manifesto e um agradecimento.
Às Loianes que não desistiram, como eu desisti, de produzir os dados que tanto me fizeram falta.
Às Fluidas, mentoradas e alunas que estão participando da pesquisa, contando a verdade nua e crua de ser uma mulher e ousar empreender.
A todas as mulheres que, antes de nós, talvez tenham matado suas ideias de negócios por “falta de dados”.
Lo, obrigada por não ter desistido.
“Virar estatística” a partir de hoje tem outro significado para nós.
Obrigada.
Mari Fernandes