Carta 105
Precisamos aprender com os homens
Fomos treinadas para dar 100% em tudo e, justamente por isso, desistimos antes de começar quando sentimos que não conseguiremos. Chegou a hora de aprender com os homi a arte de entregar 20% sem culpa — e permanecer nos lugares que são nossos.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSAS!
Como a senhorita chega nesse dia 1 do último mês normal do ano da empresária?
Eu chego recarregadíssima, pois, como você sabe, saí de férias.
Nem eu sabia que precisava tanto delas.
Fui para a Chapada dos Veadeiros com o Sr. Fluido fazer o que eu amo: nada e cachoeira.
Vou resumir mais ou menos como foi: 398 mil horas deitada no sofá vendo séries de qualidade duvidosa.
242 horas deitada na cama lendo livros de qualidade nada duvidosa.
Um sem número de horas agarrada no Sr. Fluido tal qual um carrapato.
Uma quantidade nada saudável de pratos veganos de todos os tipos.
E 2 cachoeiras novas para a conta.
Tivemos também o episódio da perereca que simplesmente PULOU EM MIM enquanto eu dormia (arrghhhhh, tenho agonia só de pensar).
E o episódio 2 do ataque das sanguessugas.
Sim, em uma das cachoeiras em que me meti, fomos agraciados com essa experiência nada aprazível.
Seguem imagens do book feito pelo Sr. Fluido antes de sermos acometidos pelas meliantes.


Durante essas férias, eu pensei demais em um assunto e tive tanto tempo para matutar nele que quero que a gente converse sobre ele hoje, juntas.
Comecemos.
Em uma das cartas passadas, conversamos sobre as peculiares sensações de caos, terror e pânico que ser dona da sua PJ nos proporciona. Juntas (eu e as vozes da minha cabeça), chegamos à conclusão de que empreender é mesmo coisa de quem tem parafusos a menos.
Isso aí já sabemos.
Mas hoje eu quero trazer ainda mais pontos para conversarmos sobre um assunto que tem relação com isso.
Veja se você se identifica com a sensação dessas frases aqui:
“Se não for para dar o meu melhor, eu não quero nem começar”
Ou talvez
“Eu odeio essa sensação de que não estou fazendo o meu máximo”
Vamos conversar um tico mais sobre isso.
Nós, a tribo das doidas, feministas, CNPJistas, fluidistas, temos muitas características compartilhadas.
Uma delas é que a nossa motivação para o trem está diretamente ligada a quanto achamos que estamos sendo FODAS naquilo.
Eu sou a rainha das rainhas nisso aí: me realizo absurdamente quando sei que dei o meu melhor na Fluida, olho para o troço e falo: meu Deus, como eu sou foda.
Talvez uma das coisas que inclusive nos tenha motivado a empreender seja isso: a dopamina, serotonina ou qualquer outra ina liberada quando nós PODEMOS dar nossos 100% nas coisas que nos interessam.
Pois muito que bem.
À medida que a vida avança,
Que a empresa cresce, nós começamos a experimentar uma outra sensação.
A de simplesmente sentir, o tempo todo, que NÃO estamos dando nossos 100%.
Que não estamos dando o nosso melhor.
Você precisava gerenciar só os seus miolos quando começou. Agora tem alunas, mentoradas, contadora, advogada, time e uma caralhada de outras coisas para cuidar.
Seu trabalho passa de FAZER coisas para VER OS OUTROS fazendo.
Tudo que a gente queria no começo era “sair do operacional”, mas antes de sair do operacional a gente vivia, respirava e dormia junto com ele.
O orgulho de criar uma sequência de stories comentadíssima no direct.
De parir uma narrativa para o lançamento que é a sua cara.
De fazer as micro coisinhas onde a gente foi aprendendo a ter prazer.
E aí, não mais que de repente, a gente simplesmente percebe que talvez muitas dessas tarefas nunca mais voltem para as nossas mãos.
E o que era para ser uma alegria imensa acaba disparando um troço muito bem esquisito.
Tudo que a gente queria era ser dispensável, mas quando isso acontece, ao invés de comemorar e soltar fogos, aparece uma vozinha na nossa cabeça que sussurra bem de leve no nosso ouvido:
VOCÊ NÃO ESTÁ DANDO O SEU MÁXIMO.
Estamos acostumadas a dar até o que a gente não tinha para fazer a empresa virar.
E agora que não podemos estar envolvidas nos troços simplesmente porque precisamos estar PENSANDO nos troços, perdemos todas as serotoninas, adrenalinas e inas que nos fizeram começar essa bagaça em primeiro lugar.
E aí começa a dar merda.
Nós, mulheres, fomos treinadas para, não importa o que, darmos o nosso máximo.
Entregarmos tudo que a gente tem, e não tem, para qualquer outra coisa que não nós mesmas.
Estarmos sempre, sempre, sempre operando no máximo do máximo.
Isso aí está incrustado nas nossas hemácias.
Só que existe aqui uma pegadinha:
Não importa o que a gente faça,
Quanto de nós a gente entregue para cada coisa,
SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE teremos a sensação de que ainda poderíamos ter dado mais.
Primeiro porque o mundo nos ensinou a mendigar por reconhecimento.
Somos tão subestimadas em nossas capacidades que aprendemos a desesperadamente buscar reconhecimento do que somos.
E o capetalismo, minhas amigas, nos ensina a encontrar esse caralho no nosso trabalho.
Ou seja, FAZENDO COISAS.
Até aí, já é um cenário cocozento, mas vamos seguir.
Quando sua empresa cresce, seu valor de FAZER as coisas diminui drasticamente.
Não é mais seu papel botar a mão na massa.
E aí, a sensação é que nosso valor está se esvaindo.
Agora, adicione a essa sopa melequenta mais um ingrediente:
Quando nós somos ensinadas que “só vale fazer algo se formos dar 100%”, estamos esquecendo que
No capetalismo, só é possível dar 100% de nós em alguma coisa se nós PUDÉSSEMOS escolher só uma ou duas coisinhas para ser na vida.
Mas a gente não pode:
Somos mães, empresárias, tias, avós, esposas, namoradas, atletas, artistas…
Nós temos uma cacetada de papéis.
Mas adivinhem só qual é o PRIMEIRO papel que a gente aprende a abrir mão “quando não estamos dando os nossos 100%”?
As tarefas domésticas?
A sobrecarga do trabalho com as crianças?
A tarefa diária de ter que ser bela?
Não, não, não.
O primeiro e talvez ÚNICO trabalho que estamos dispostas a abrir mão porque “não estamos dando o nosso 100%” é o nosso trabalho.
Somos chamadas para uma palestra e dizemos “ah, eu não vou poder dar o meu máximo, então não vou dessa vez”.
Nos convocam para assumir a liderança num grupo e, na hora, morremos de medo da filha da puta da sensação de “não vou poder dar o meu melhor”.
Queremos lançar um produto e, na hora que começamos a colocá-lo no mundo, dizemos “é, vou suspender esse projeto por enquanto, quero fazer quando eu estiver inteira para ele”.
Não é, no mínimo, curioso que a nossa vontade de “dar o nosso máximo” na verdade nos impeça de dar o mínimo justamente naquilo que nos sustenta? Emocional e financeiramente?
Nao é curioso que você nunca, jamais, em momento algum da sua vida, tenha cruzado com um homem que disse “não vou assumir essa liderança aqui porque tenho medo de não dar o meu máximo”?
Os homens estão CAGANDO para o máximo deles.
Cagando e andando (como diz minha vó).
Eles estão preocupados em conseguir o que quer que eles queiram.
Ainda que, para isso, eles precisem fazer as coisas bem marromeno.
Pais relapsos, chefes bostas, maridos meia boca.
Mas ao que me parece tem dado certo para eles não?
E nem acredito que vou escrever as próximas palavras:
Mas, nós mulheres, precisamos urgentemente aprender isso com os homi.
Esse dia chegou.
Eles são infinitamente melhores em não dar o máximo.
Em viverem tranquilos e felizes na vida dando uns 20% do que são para cada coisa que fazem.
E isso tem permitido a eles dominarem as empresas, os estados o dinheiro e o poder no mundo.
Excelente troca, né?
O pânico que nos aflige quando achamos que não vamos conseguir dar nosso melhor, na verdade, é uma excelente forma de IMPEDIR que a gente sequer comece.
É um mecanismo muito engenhoso de tirar a gente das disputas que nos são relevantes.
Quando finalmente estamos crescendo, quando finalmente saímos da operação que nos toma tanto tempo, aí vem a cartada final
“Você não está dando o seu máximo, então a melhor coisa a fazer é se retirar”
E nos retiramos.
Do produto que a gente tanto amava.
Do grupo de netoworking que fomos chamadas para presidir.
Da rodada de palestras que nos convidaram para apresentar.
Nos retiramos.
Não porque não sejamos capazes.
Mas porque nos convenceram que só podemos pertencer se estivermos dando a porra dos nossos 100%.
A minha petição hoje é para que primeiro a gente ACEITE rápido que não podermos dar nossos 100%.
E, segundo, precisamos entender que a porra do “dar o meu máximo” é um engodo.
Precisamos parar de usar essa muleta contra nós mesmas.
De abandonar os troços que queremos por que não poderemos ser 100%
Precisamos nos alegrar com os 20%.
Celebrar os 10%.
Bater no peito quando entregarmos 5%.
Não se retire por que você não é 100%.
Permaneça.
Esse lugar é seu.
Beijos aos 10%, 20%, 30%,
Mari Fernandes.