Carta 103
Esquecemos a Alface
Uma catarse coletiva para todas as empresárias que já se perguntaram em que momento racional decidiram trocar estabilidade por um CNPJ cheio de tubérculos para resolver. Empreender não é saudável — mas pelo menos não estamos sozinhas nessa loucura.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA.
Como a senhorita chega nessa sexta de outubro?
Xoxa, capenga, manca ou maravideusa e reluzente?
(Torcendo pelo maravideusa e reluzente, mas zero surpresa caso você venha capenga).
Essa carta foi motivada por uma série de diálogos (reais) que eu tive ao longo dessa semana com amigas empresárias e que você deve ter com as suas amigas também.
Se vez ou outra você não profere as palavras que está prestes a ler, queria te dizer que a senhorita tá autorizada a gritá-las em voz alta sempre que quiser.
Faremos hoje uma catarse coletiva.
Um expurgo em palavras dos pensamentos que correm nas cabeças de todas as empresárias desse país.
Eu não conheci nenhuma empresária até hoje que não tenha pensado esses troços pelo menos uma dezena de vezes no último mês.
Leia a carta de hoje com a força do ódio de todos os B.Os que você teve que resolver na última semana.
Com o sarcasmo que às vezes é o único que nos mantém de pé depois de um mês todo cagado na empresa.
Com a desesperança esperançosa e irônica que toda brasileira tem em seu DNA.
Se não dá para vencer todas, pelo menos vamos rir (e reclamar) da nossa própria desafortunada condição.
Lá vai:
Empreender não é saudável.
QUEM INVENTOU ESSA LOUCURA DE SER DONA DO PRÓPRIO NEGÓCIO?
Sério, em que dia a gente acordou e pensou:
“Nossa, que tal se eu, ao invés de ter um emprego estável com todas as garantias, inventar de criar um negócio cheio de riscos, onde eu não tenho garantia de porra nenhuma e ainda vou ter que aprender a pagar não só o meu salário, mas o de toda a equipe em volta de mim?”
QUE TAL, HEIN?
Aí a gente vai lá, com um arroba no Instagram e um sonho, inventar das nossas cacholinhas um produto, uma narrativa, um funil, um roteiro, uma entrega, um time, uma DRE e uma cacetada de DARFs.
PARA QUÊ?
Me explica, para quê?
Sério, para pra pensar RACIONALMENTE, tipo calculando 2+2.
Vamos brincar daquele troço do Silvio Santos onde as pessoas têm que escolher entre prêmios diferentes sem ouvir o que são os prêmios.
(Leia com a voz do Silvio Santos):
“Ma oooiii, vamo lá: você precisa pagar seus boletos e gostaria de fazer isso com a maior tranquilidade possível. O que você escolhe?”
Opção A: Concurso com salário estável onde você tem certeza que pode morrer nesse cargo, a não ser que você cague na mesa do chefe usando um chapéu mexicano enquanto canta o hino americano e rebola falando ‘tchatchatcha’.
Opção B: CLT com décimo terceiro, férias remuneradas e o direito de poder apresentar um atestado e ser liberada do trabalho.
Opção C: Não saber se vai receber ou não, bater a meta de um mês só para, no mês seguinte, ter que bater de novo; ter que orientar pessoas a fazerem coisas sendo que nem você sabe o que está fazendo; ficar doida para tirar uns dias de descanso, mas, quando tirar, ficar culpada porque não tá trabalhando.
A gente vai lá e grita a plenos pulmões:
“OPÇÃO C, SÍLVIO! CÊÊÊ!”
E saímos felizes da vida com um CNPJ no braço.
Enquanto todos os amiguinhos levam para as suas residências suas aposentadorias e férias remuneradas.
Excelente escolha, hein, irmãs?
Essa semana eu só não fui a Sheena por falta de uma tanguinha fashion para compor o look.
Descasquei tanto pepino que, se eu ver um sunomono na minha frente, é capaz de eu golfar o almoço para fora.
Segundo minhas mentoradas mais tilelê good vibes, tem uns troços muito esquisitos acontecendo no céu, e por isso essas duas últimas semanas estão tensas.
Mas vamos falar a verdade, minha gente: toda semana na vida da empresária é com emoção.
É teste para cardíaco. Marcapasso nenhum seria capaz de acompanhar o ritmo do nosso miocárdio.
Pode testar, instala um trem desse numa empresária. É dois palitos pro bicho fundir e ir pedir arrego para quem fez tamanha maldade com ele.
“Por que não me instalou num concursado, pô?”
É mandioca, pepino, cenoura. Todo dia um tubérculo diferente sendo inserido em nosso fiofó.
Imposto.
Lead caro.
Espertinho que pede reembolso.
Plágio.
Alcance baixo.
Guru de sapatênis.
Leoa de blazer com água na taça.
Lugarzinho insalubre esse que a gente escolheu, hein?
Será que não é algo que botaram na nossa água?
A gente tava mesmo consciente quando escolheu “trocar o pneu com o carro andando”?
Somos tão prejudicadas da cabeça que a gente repete essa frase sem nem visualizar essa cena.
Pois agora pare e visualize: você dirigindo um carro.
Sozinha.
“POW.”
Pneu estoura.
Tu mantém o carro em movimento, pula para o banco de trás, agarra sua caixa de ferramentas.
Volta para o banco da frente, se pendura na porta aberta, à la Missão Impossível, e insere, em uma roda EM MOVIMENTO, uma chave de roda para desaparafusar os pregos tudo.
Faz sentido isso, minhas consagradas?
FAZ SENTIDO??
Se a gente tiver um tico de bom senso, não faz.
Mas é aí que tá o problema.
Quem foi que disse que empresária tem bom senso?
Tem nada.
A gente não só escolhe uma carreira arriscadíssima, onde os machos dominam há centenas de anos sem dó, como ainda escolhemos fazer isso COM AS NOSSAS PRÓPRIAS REGRAS.
Não tá suficiente a loucura de criar uma máquina de dinheiro que funcione sem você.
Nós queremos fazer isso SEM USAR as estratégias que tudo quanto é FDP da internet usa para ficar rico.
Queremos fazer tudo com ética.
Pagar bem nossa equipe.
Sermos verdadeiras e justas com os clientes.
E só prometermos aquilo que sabemos que vamos cumprir.
E, se bobear, ainda queremos ser lixo zero, carbono zero e qualquer coisa cagada zero também, que é pra não deixar o trem muito fácil pro nosso lado.
Para empreender, precisa ter não um, mas alguns parafusos a mais soltos.
Soltos não.
Faltantes.
Eles nem vieram na caixa, e a gente sai por aí sem eles mesmo.
Empreender não é saudável.
Não é coisa de gente normal.
Mas talvez seja justamente por isso que escolhemos, ao que tudo indica, conscientemente fazer esse ato de insanidade conosco mesmas.
Empreender não é coisa de gente normal.
Mas deve ser por isso que a gente se reconhece tanto uma na outra.
Deve ser por isso que nos sentimos tão deslocadas nos lugares de gente “normal”.
A gente faz meta até dormindo.
Calcula o caixa enquanto escova os dentes.
Tem ideia de posts enquanto toma banho.
Passa um sabonete no suvaco e pensa na mentorada que tá precisando de ajuda num troço qualquer.
Não somos normais.
Não escolhemos uma profissão saudável.
E muitas vezes precisaremos nos convencer que deve ter algum propósito maior nessa desgrameira que nos dá tanta dor de cabeça chamada empresa.
Empreender não é saudável.
Mas, como diz o meme, um pouco de droga, um pouco de salada.
E nós definitivamente deixamos a alface de fora do prato.
Brindemos a todas as desequilibradas que fizeram essa escolha irracional.
É tudo doida.
Mas pelo menos não estamos sozinhas.
Sinta-se em casa.