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Carta 100

Agora nós sabemos

Na centésima carta, um manifesto sobre o que significa ser uma empresária feminista que constrói história sem saber que está fazendo isso. Da pilha de lixo jogada na mesa de uma jovem coordenadora até a revolução silenciosa que se avizinha — essa carta é para honrar quem faz parte dela.

Mulheres

BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!

Você notou em que carta estamos?

Chegamos juntas à carta número 100.

Eu sou toda trabalhada nos rituais, metas e indicadores.

Então, chegar na CENTÉSIMA carta, na centésima semana escrevendo toda semana e lendo vocês todas as semanas, é uma maravilhosidade para mim.

Nessa carta 100, eu queria refletir e dividir alguns marcos aqui com você.

Para isso, vou precisar voltar um tico na história da Fluida e na minha também, para fazer sentido para você.

Comecemos.

Se você é mais nova aqui na Fluida, digamos que me conhece há um ano ou menos, você provavelmente não sabe algumas coisas muito relevantes

para você entender o que, de verdade, a gente faz aqui.

Eu nasci em uma família que só nasceram mulheres.

Isso mesmo, até meus 30 e poucos anos, TODOS os bebês da minha família eram meninas.

Eu nasci e cresci achando que o mundo era das mulheres.

O meu núcleo familiar por parte de mãe, com quem sou mais próxima, era bem próximo mesmo.

Nós, eu, minha mãe, tias, primas e avó, nos encontrávamos todos os dias.

Saíamos da escola e íamos todas almoçar na casa da minha vó.

Era, como você pode imaginar, um bando de mulheres confinadas em uma sala falando sem parar sobre todos os assuntos possíveis, tudo ao mesmo tempo agora.

Eu vi as mulheres da minha família trabalhando, estudando, tomando suas decisões e fazendo as coisas sem pedir licença

para ninguém.

Cresci entendendo que ser mulher era isso e fui para a vida me comportando tal qual as mulheres da minha família.

Fui também decidir as coisas que eu queria do jeito que eu queria.

Fui representante de turma em todos os anos do colégio.

Capitã do time de futebol.

Participei do grêmio.

Organizei abaixo-assinados contra professores que minha jovem cabeça achava que não estavam fazendo seu papel.

Fui de todas as comissões que você pode imaginar.

Se existisse um grupo reunido para fazer algo, lá estava eu no meio mandando e desmandando.

A mesma coisa na faculdade: diretora de centro acadêmico, capitã do time de handebol… eu continuei me metendo onde achava que tinha que me meter.

Mas acontece que, como sabemos, o mundo nunca foi feito por mulheres.

Da porta de casa para fora, eu era “minoria”.

Bom, quando entrei no mercado de trabalho, comecei a perceber sinais de que talvez eu tivesse me enganado quanto à quantidade de poder que as mulheres realmente têm.

Entre dezenas de situações que vivi, uma delas acho que vale a pena dividir com você.

Um dos meus primeiros empregos foi como professora em uma escola de educação infantil. Eu amava trabalhar com as crianças (ainda amo). Entrei para ser professora temporária e me chamaram para ficar como titular. Eu amei, claro.

Não deu poucos meses e me convidaram para ser coordenadora.

Eu achei aquilo muito estranho, juro para você. Eu me perguntei dezenas de vezes o que elas tinham visto em uma professora que dava aulas só uma vez por semana, mal tinha chegado, para achar que eu podia coordenar todo o restante da equipe.

Mas eu pensei:

“elas devem ter visto em mim algo que eu não vi, vou aceitar e ver no que dá.”

Agora imagine a cena, eu tinha 20 e poucos anos.

Professora infantil, cabelo loiro cacheado, 1 metro e meio de estatura, vozinha meiga.

Eu tinha tudo externamente para ser subestimada como a professora fofinha que seria passada para trás.

Bom, quando assumi esse cargo, ganhei minha própria sala (lembro até hoje que tirei foto da plaquinha que ficava na porta “Coordenação”, sem acreditar que o meu lugar era ali).

Não era bem a minha sala, eu dividiria ela com os outros coordenadores das demais áreas.

Coincidência ou não, todos homens.

Eu também não tinha uma mesa de verdade, a minha mesa era uma prateleira que foi esvaziada e ali se apoiava o meu monitor e o teclado.

Embaixo da prateleira tinha um armário que fazia com que minhas pernas não se encaixassem embaixo da “mesa”.

Era mais uma gambiarra improvisada, mas para mim era a MINHA mesa de coordenadora.

Durante esse período em que trabalhei nessa sala com mais 3 homens dividindo o espaço comigo, algumas situações peculiares, por assim dizer, aconteceram:

Quando o telefone tocava, eu notava que ninguém atendia. Aquilo me deixava totalmente confusa, eu pensava: “será que eles estão ouvindo?”. Outras vezes refletia: “acho que tá todo mundo muito ocupado”, e lá ia eu atender o telefone.

Um certo dia, choveu muito de madrugada e esqueceram a janela da nossa sala aberta.

Cheguei na sala com o chão inundado.

Pensei:

“nossa, que sorte que fui a primeira a chegar, assim já chamo alguém para resolver isso”.

Mas eu não tinha sido a primeira a chegar, todos os homens já tinham passado pela sala, visto a água no chão e, talvez porque estivessem muito ocupados (pensei eu), ainda não tinham providenciado a limpeza.

Um deles tinha um hábito bem esquisito que eu não conseguia decifrar.

Ele não me chamava pelo nome.

Toda vez que o telefone tocava e era para mim, ele gritava alto na sala o nome do meu cargo.

Mas eu notava que com os outros coordenadores isso não acontecia.

Eu fui juntando uma pecinha daqui, outra dali, e a imagem do quebra-cabeça começava a se formar.

O dia que a ficha foi arremessada no meu crânio foi emblemático.

Cheguei para trabalhar, nessa época já tinha conseguido (não sem precisar arrumar uma leve confusão) uma mesa de verdade, com espaço para cadeira e tudo.

Abri a porta da sala e me deparo com uma pilha de LIXO em cima de toda a minha mesa.

Papel de rascunho, material de escritório quebrado, envelope amassado… um monte de tranqueira espalhada em cima da minha mesa.

Eu fiquei vários segundos em pé, olhando para aquela cena, tentando ao máximo coordenar meus neurônios para explicar como aquilo poderia ter acontecido.

Eu imaginei todos os cenários que consegui na minha cabeça, mas nenhum deles foi exatamente o motivo para aquela cena.

Um dos coordenadores quis abrir espaço em um dos armários para ele colocar as coisas dele, ele achou totalmente aceitável catar tudo que estava no armário e que, na visão dele, eram “dispensáveis” e jogar em cima da minha mesa.

Ele jogou tudo na minha mesa.

Alocou as coisas dele com esmero no armário e foi trabalhar.

Quando questionado pelo superior dele por que ele tinha feito isso, eu OUVI da boca dele a seguinte resposta:

“Eu achei que essas tralhas eram dela, aí coloquei na mesa dela para ela ver o que queria fazer.”

E ficou por isso mesmo.

Nenhum pedido de desculpa, nenhum remorso, ele tinha certeza que o lugar das tralhas só podia ser o meu.

Esse dia, eu juntei tudo que vinha vivendo e cheguei a uma conclusão óbvia, porém totalmente nova para mim:

Uma mulher nunca vai ser respeitada aqui.

Foi aí que eu descobri que nas minhas décadas anteriores eu estava vivendo quase uma utopia.

Tudo que eu acreditava sobre a força e capacidade das mulheres só eu mesma via.

A maior parte do mundo, pelo contrário, nos achava incapazes, dispensáveis e, muitas vezes, um estorvo para se livrar.

Bem-vinda ao mundo, Mariana.

Bom, de lá para cá, eu fui construindo, sem saber, uma carreira voltada para nós.

Eu tinha certeza que não seria respeitada ali única e exclusivamente porque eu era mulher, mas ainda não tinha entendido na minha cabeça que aquela experiência moldaria meus desejos profissionais pela próxima década.

Esse lugar onde eu trabalhava fechou e eu fui demitida (obrigada, deusas, por terem providenciado isso), e a partir daí começa o capítulo empreendedor da minha vida.

Entre dezenas de experiências, modelos de negócio, serviços prestados, chegamos vários anos depois a onde me encontro agora: fundadora da única escola feminista de gestão de negócios do Brasil.

E a segunda no mundo inteirinho.

(Como é que eu vim parar aqui, eu só tenho 6 anos).

Tenho um time só de mulheres.

Atendo exclusivamente mulheres.

Já atendi, acompanhei e criei planos de ação para mais de uma centena de negócios individualmente.

Tenho um grupo de mentoria FODARÁSTICO que me dá um orgulho da porra de conduzir.

Sou conselheira de empresárias que estão construindo uma bufunfa nos seus próprios termos.

Eu consegui reconstruir a minha utopia.

No meu país, Fluida, nós não somos minorias.

Criamos nosso próprio código de conduta.

Reforçamos todos os dias quão competentes, capacitadas e qualificadas somos.

Fazemos dinheiro, sim, a gente só não imprime as notinhas, mas os negócios que estão na Fluida movimentam literalmente MILHÕES em faturamento por ano.

A carta de hoje é para exaltar isso.

Não tudo isso que eu falei ali em cima, mas para exaltar as MULHERES que construíram isso comigo.

É preciso ser muito doida para ouvir uma desconhecida falar na internet que feminismo e negócios devem estar na mesma frase e chegar à conclusão que “tá aí, vou escolher essa aí como minha mentora.”

Lá na VÊNUS, que é nossa mentoria em grupo, toda quinta a gente compartilha umas com as outras as vitórias da semana.

Chamamos esse ritual de “quinta pix”.

Ontem foi dia de “quinta pix”. No final do dia de trabalho, já tinha fechado o computador, vou dar a última espiadinha no WhatsApp antes de dormir e me deparei com um punhado de mensagens falando sobre os dígitos que cada uma tinha alcançado no mês.

Sim, a gente fala bem muito de dinheiro.

Mas eu também vi outra coisa ali:

Uma delas posta um vídeo no Instagram, a outra dá um print no vídeo, vai no grupo da Vênus e posta lá fazendo um elogio para todas as outras verem.

Uma outra sai de férias e compartilha a foto pleníssima na praia com as outras, que dos seus home offices inundam o grupo com mensagens de “aproveite”, “você merece”, “que delícia”.

Uma terceira, barriguda, à espera da primeira filha, compartilha que está difícil se afastar emocionalmente do trabalho, que ela tá doida para voltar. Imediatamente, todas as demais que são mães começam a soltar seus enormes e detalhados áudios compartilhando suas experiências com os primeiros filhos.

Nasce a primeira baby do grupo, ela vira a mascotinha e a gente recebe fotos de uma bebê cabeluda e miudinha nos nossos celulares.

Nós aprendemos a fazer dinheiro.

E aprendemos também a sermos para as outras o que o mundo não é para nós.

As piadinhas entre elas, as puxadas de orelha que elas se dão quando uma está querendo fazer merda na empresa, as vitórias compartilhadas, os choros que todas elas já tiveram em algum momento da jornada… tudo isso se mistura com mulheres que estão ali, dando o seu melhor para serem verdadeiramente livres.

Na centésima carta, a única coisa que talvez caiba aqui é honrar essas mulheres.

E reconhecer a revolução que se avizinha.

Em outros tempos, um grupo de mulheres que se reunia com frequência para falar dos seus interesses acabava na fogueira.

Hoje a gente encerra a quinta com prints dos dígitos que nós mesmas aprendemos a fazer.

Eu não sei se você tem dimensão do que isso significa em termos históricos, mas eu preciso que você enxergue isso.

Um dia, algum grupo de mulheres ficou muito fulo da vida porque não podiam votar.

Elas tinham certeza de que era algo utópico, distante e quase inacessível para elas, mas mesmo assim resolveram que valia a pena.

No Brasil, as primeiras discussões sobre voto feminino começaram em 1824.

108 anos DEPOIS, assina-se uma lei dizendo “tá bom, mulherada, vocês também podem”.

NENHUMA das encrenqueiras de 1824 votou.

Mas elas, talvez até sem saber, iniciaram a linha histórica que CENTO E OITO FUCKING ANOS DEPOIS desembocou no nosso direito de dizer quem é que nos representa.

Eu gosto de pensar que, sem saber, nós também estamos fazendo história.

Daqui a cem anos, existirá uma empresária, bisneta de empresária, que nasceu tendo certeza de que gerenciar um CNPJ era para ela.

Ela tem várias amigas empresárias também, os livros sobre gestão são específicos para a gestão feminista, essa seção existe na livraria e ela conhece Simone tal qual nós conhecemos Cinderela, simplesmente sempre esteve lá.

Ela nunca duvidou das suas capacidades de liderança, afinal, ela tem dezenas de exemplos de empresárias e líderes na mídia o tempo todo.

Nem se fala mais em “liderança feminina”, uma vez que os cargos de chefia naturalmente já são ocupados meio a meio por homens e mulheres.

A gravidez é vista como um importante ato de manutenção da sociedade e mulheres que decidem ter filhos são vistas com reverência.

Esse mundo existe.

E nós estamos construindo ele agora,

com as nossas mãos.

Talvez você não tenha percebido.

Mas você está fazendo parte da história das mulheres.

À todas as minhas alunas, equipe, mentoradas… OBRIGADA POR ISSO.

Vocês serão lembradas como aquelas que, sem saber, criaram o que antes era utopia.

Agora vocês sabem.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·