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Carta 039

A Branca de Neve e Felizes para Sempre

Assim como o príncipe encantado não salva ninguém, o CNPJ encantado também não resolve tudo. Uma carta sobre a perigosa romantização do empreendimento — e por que dinheiro é libertação.

Gestão de dinheiros

BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!

Como você encerra esse mês de julho?

Por aqui a senhorita já sabe, foi um mês da ppk.

Além de bater as metas, tô com fogo no cool para tudo que está acontecendo nos bastidores.

(Deve ter algum fenômeno que explique o nível de incendiamento do meu fiofó em julho, se alguém souber me avisa que eu quero usufruir dele mais vezes)

Vou contar 3 coisinhas bem legais que estão rolando aqui:

  • Estamos implementando um novo sistema de tarefas (relaxa que não vamos abandonar o nosso amado notion, quando tiver com os testes mais avançados conto para vocês)
  • Iniciamos uma consultoria de Narrativa de Conteúdo aqui na Fluida com uma consultora deusa maravilhosa que desenhou essa consultoria comigo (contei tudo sobre essa última parte lá nos stories da Fluida, cê viu? Se num viu, ainda consegue pegar o fio da meada que os stories ainda estão ativos hoje).
  • Gestação de um possível novo produto (esse aqui deixarei em suspense porque não sabemos se vamos pari-lo de fato ainda)

Agora que já pegamos a xícara de chá pra esse papo de hoje (ou seria uns bons drinks? Afinal, sexta-feira, 17h), vamos a nossa carta de hoje.

E já vou começar bem tiazona mesmo:

A senhorita acredita em príncipe encantado?

Apesar de todos os felizes para sempre impostos pela Disney, provavelmente não mais.

Você já sabe que príncipes não salvam poha nenhuma.

Você não acha que ele vai te tirar da torre e salvar você do dragão.

E certamente você já sacou que é furada o papo de que “depois que” você tiver um príncipe para chamar de seu, tudo da sua vida estará resolvido e finalmente você poderá jogar confetes e ser “feliz para sempre”.

Em príncipe encantando você não acredita mais.

Só que talvez a gente tenha transportado o mito do príncipe encantado para outro lugar.

Pode ser que você acredite no conto do CNPJ encantado.

E hoje nosso papo é sobre isso.

Venderam pra gente um discurso destorcido, para nós mulheres, de que alguma coisa fora da gente vai concretizar os nossos sonhos.

Esse primeiro produto que era vendido com essa promessa de felizes para sempre era o casamento, o relacionamento.

Um homem que escolhesse a gente pra ser a mulher da vida dele. Um homem que, dentre todas as outras mulheres do planeta Terra, iria escolher a gente e ele ia prover todas as nossas necessidades.

Esse homi nos entregaria de bandeja todas as nossas necessidades: financeiras ele, de abrigo, de amor, de cuidado, de afeto, de reconhecimento de segurança.

Ele, esse príncipe encantado, seguraria a barra quando as coisas dessem ruim.

Essa foi a ideia que venderam para gente, todas nós, mulheres, algumas mais, outras menos.

Às vezes essa ideia é vendida explicitamente, como em todos os contos de fadas da Disney. Mas, muitas vezes, e talvez mais nocivamente, ela é vendida implicitamente, escondida em um monte de coisas que a gente ouve, aprende, lê, percebe, presencia, testemunha, que prova pra gente que a nossa felicidade vai ser concluída.

O cheque da nossa felicidade é dado quando a gente encontra um homem pra casar e ter filhos juntos.

Só que, meu amô, a gente não é boba nem nada.

Aprendemos ao longo dos anos, ou está aprendendo ao longo dos anos, que essa história é conto de fadas, de fadas e não de mulheres reais.

Muita de nós casamos, tivemos filhos, tivemos relacionamentos, namoramos, e a gente descobriu que toda aquela promessa de felizes para sempre exigia da gente um monte de concessão, um papel que talvez não fosse aquele papel que a gente quisesse desempenhar.

Só que agora que a gente aprendeu, eu vejo esse mesmo conto sutilmente se enfiando na nossa relação com os nossos negócios.

Se pergunta aí: o que que estão vendendo pra gente em relação a ser empresária?

Basicamente que a empresa é a salvação pra todos os nossos problemas.

Se a gente tá num trabalho que a gente não curte, se a gente tem um chefe que não nos valoriza, se a gente não tá expressando todos os nossos dons e talentos, se não estamos satisfeitas com o salário, empreender é a solução.

Empreender é que nem chá de boldo para vó do interior: resolve TU-DO

Se a gente quer impactar a vida das pessoas, gerar resultado, gerar transformação, ser conhecida, ser reconhecida, um negócio é a solução.

Agora, vem cá, pega o açúcar que vai ser um chá de realidade amargo

agora.

Se a gente juntar todas essas coisas, na real, a gente só está substituindo a figura do Príncipe Encantado pela figura do CNPJ Encantado, que como num passe de mágica vai satisfazer todas as nossas necessidades.

E onde que está o perigo aí?

Em dois pontos.

O primeiro

é a romantização além da conta da função de um negócio.

E isso deixa o nosso negócio em risco.

Porque perceba, se a gente acha que o nosso negócio tem a função de dar segurança, liberdade, propósito, transformação, reconhecimento, dinheiro, afeto, autoridade, se o nosso negócio tem todas essas funções, tem uma dessas funções que fica prejudicada — justo a função que é a função primordial de uma empresa, que efetivamente é a função que, no frigir dos ovos, é aquela que traz pra gente mais independência: a de fazer lucro.

A função de uma empresa é fazer dinheiros.

Leia pausadamente mais uma vez

A função de uma empresa é fazer dinheiros.

E percebo uma mulherada grande comprando esse discurso que o negócio serve pra várias outras coisas e que fazer lucro é só mais uma coisinha. Um mero detalhe.

Não queremos empreender SÓ por grana (apesar dos homens terem carta branca para fazer qualquer coisa só por grana).

A gente quer enfiar algum propósito grandioso e benevolente nas nossas empresas a todo custo.

É ÓBVIO (e eu sou uma defensora ferrenha disso) que se for para empreender SÓ por dinheiro, é mais fácil (e dá menos queda de cabelo) trabalhar para outra pessoa.

Mas, a gente não poder se engambelada a perder de vista um ponto chave da nossa liberdade concreta.

Dinheiro nos dá PODER de escolha.

Para decidir se a gente fica com um cara ou não, ou com uma mulher ou não. Para dar conta dos boletos. Para dar a vida que queremos para os filhos. Para a gente ficar doente, ter um excelente plano de saúde e arcar com todos os custos. Para fazer quase que qualquer coisa num mundo que uniformizou todas as trocas por dinheiros.

Então, essa visão romantizada de que o negócio EXISTE PARA suprir todas as outras coisas da nossa vida, além do dinheiro, eu acho que é uma grande cilada, bino.

É fato que o negócio também pode proporcionar várias outras coisas pra gente? É.

Mas, quando rejeitamos a ideia de colocar o dinheiro no centro, a gente fica muito boa em rejeitar (sem notar) a riqueza.

E isso me parece uma EXCELENTE forma de manter mulheres num esquema novo de prisão.

Ele não é a conclusão, o ápice, o cume da única coisa que a gente vai fazer de útil nessa vida, de relevante, de memorável nessa vida.

Já o segundo

ponto que é perigoso é a gente resumir a nossa vida e o nosso trabalho.

O negócio deixa de ser um trabalho e passa a ter a função de suprir todas as áreas da sua vida, vira um propósito pessoal, uma missão de vida, um lugar onde você é feliz, onde você acolhe, onde você é acolhida.

E se você ler esse parágrafo de novo vai ver que isso parece o bosque que a branca de neve mora rodeada de animais que fazem as tarefas domésticas para ela: simplesmente esse lugar NÃO EXISTE.

Veja, eu SINTO muitas vezes tudo isso em relação a Fluida. A Fluida, sim, é um lugar onde eu acolho e eu sou acolhida. Ela é uma transformação do que eu gostaria de ver no mundo.

Mas, a FUNÇÃO dela NÃO É ESSA.

Se a minha felicidade está condicionada a esse paraíso místico que a gente pintou que negócios precisam ser, quando o meu trabalho tá mara, quando o meu negócio faz dinheiro, eu sou ótima, eu sou uma pessoa que tem valor.

E no dia que não tá mara, porque tem dias que tá tudo cagado, não é um conto de fadas, eu deixo de ser uma pessoa que tem valor.

Tudo foi por água abaixo e a minha vida em um passe de mágica fica toda cagada só por que um trem dentro de um CNPJ (que se a gente for parar para pensar é só mais uma invenção coletiva) ficou cagado.

Você já se sentiu assim?

Quando você vende, você se sente poderosa.

Quando o cliente fala que não, você se sente a mosca do cocô do cavalo do bandido.

Eu me vejo caindo nesse perigo às vezes, vejo minhas alunas, consultorandas e mentoradas caindo nele também.

Abro essa conversa hoje porque isso não é uma coisa sobre a qual a gente fala,

que a gente conversa, que a gente debate, que a gente ouve, que a gente escuta.

Por quê?

Porque o mundo dos negócios não foi desenhado pra gente. Ele não foi feito pra gente, ele não foi feito pra mulheres.

O mercado de negócios, a administração, o mundo foi feito por e para homens. Então, eles falam sobre os desafios que eles vivem e que, muitas vezes, esses desafios não são desafios que a gente se conecta ou que a gente sente.

Então, o que eu quero trazer pra você, o seu CNPJ não é o seu príncipe encantado.

Não existe príncipe encantado.

E eu juro que eu gostaria muito que existisse, que o CNPJ fosse o lugar encantado no qual a gente fosse suprir tudo que a gente precisa para ser uma mulher completa e realizada.

Só que não é assim e eu vou trazer a realidade dos fatos para você, vou te preparar, vou te acolher quando você sentir uma dessas coisas e achar que você é um E.T. que só você sente.

Porque não tem príncipe encantado e nem CNPJ encantado, mas existe capacitação, existe consultoria, existe mentoria, existe curso, existem outras mulheres empresárias vivendo coisas muito parecidas com as suas, existe REDE.

Se for pra você acreditar em alguma coisa encantada, acredita no poder e na força que outras mulheres vivendo coisas muito parecidas que você tem também.

Beijos encantados,

Mari.

OBS: Eu tenho recebido um monte de email e direct de você falando sobre as cartas de sexta. E eu to amando isso num nível “fogo no cool de julho”.

Eu fico PREENCHIDA de orgulho e felicidade genuína quando sei que vocês leram a carta, quando em uma conversa com alguém elas mencionam “inclusive aquele ponto da carta de sexta me lembrou que”.

É um sonho realizado que eu nem sabia que tinha.

Por isso, quero começar HOJE uma nova tradição entre a gente.

Ela vai funcionar assim:

  • Sempre que você quiser conversar sobre a carta de sexta você está previamente autorizada a me enviar seu textão, desabafo, pitangas e comemorações em resposta a carta. Pode mandar sem dó que eu AMO ler
  • Agora vem a segunda parte da tradição e a mais importante: às vezes você queria muito papear mais sobre a carta de sexta, mas a vida nem sempre te dá o tempo para discorrer longos textões enquanto o feijão cozinha e o imposto do mês bate a porta. Então, a partir de HOJE, ainda que não haja tempo para textões nós vamos nos comunicar usando uma tecnologia ancestral chamada EMOJI. Sim, sempre que você ler uma das cartas de sextas nós teremos um código entre nós. Você me responde com a nossa ondinha 🌊 e eu vou saber que você leu. É tipo aquela amiga que vocês quase nunca se encontram, mas de vez em quando mandam memes sem contexto para a outra saber que você ainda está lá. Toda vez que você me responder uma carta com 🌊 eu sei que você leu. Eu sei que você tá aqui, eu sei que a gente divide os mesmos sentimentos.

Bora começar nossa nova tradição hoje?

Tô esperando a sua 🌊

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