Carta 156
Não faz não
Uma gripe que derrubou a agenda inteira revelou algo que toda empresária disciplinada precisa ouvir: talvez você não precise de mais disciplina, mas de permissão para simplesmente não fazer.
Buenas tardes, maravilhosa.
Como a senhorita chega hoje?
Eu chego meio dopada de remédios ainda, porque essa semana uma gripe desgraçada me derrubou.
Não qualquer gripe, foi daquelas que no dia 1 já me deixou de cama e completamente sem voz.
E isso exigiu algo que eu não gosto de fazer: desmarcar 2 dias inteiros de agenda PF e PJ.
E aí, senhora, com o apanhado de tudo que aconteceu depois disso eu vim escrever essa carta.
Nela, tenho para você uma missão nobre e, talvez, um pouco louca.
Uma convocação.
Um convite: DESdiscipline-se.
Isso mesmo.
Hoje, a gente vai falar sobre ser menos disciplinada — e mais viva.
Sim, eu sou a própria embaixadora da disciplina.
Eu amo, eu pratico e recomendo pra todo mundo que eu conheço.
PRECISO de uma agenda organizada.
Tenho prazer em dar check em uma tarefa feita.
Sinto um tesão estranho quando termino uma segunda-feira com todos os bloquinhos da agenda lindamente preenchidos e concluídos.
Então eu tenho propriedade para te dizer isso: talvez, em algum ponto da tua jornada, você precise exatamente do oposto.
Você vai precisar parar de ser tão rígida com você mesma.
Vai precisar olhar pra sua rotina e perguntar:
“Essa regra ainda me serve?”
Vou te contar uma das minhas.
Durante anos, absolutamente tudo que era da minha PJ era inegociável.
Intocável.
Se tinha reunião de vendas, ela aconteceria.
Se tinha alinhamento de equipe, aconteceria.
Se tinha planejamento de conteúdo, eu dava um jeito de fazer acontecer.
Se a PF quisesse viver alguma coisa naquele mesmo horário, o problema era dela.
A PF que se reorganize. Que remaneje. Que se vire.
A Fluida mandava, reinava e governava. E eu obedecia.
E olha, essa regra me serviu bem. Foi ela que me trouxe até aqui.
Mas aí… um dia eu tava com um imprevisto. Um daqueles que jogam a agenda pro alto e fazem a gente repensar a vida inteira.
Três compromissos no mesmo horário.
Dois da PF, um da PJ.
Um dos da PF era inegociável.
Eu precisava estar lá.
Automaticamente, meu cérebro mandou:
“Corta o outro evento da PF e mantém o da PJ. Óbvio.”
Mas aí eu ouvi meu próprio pensamento e falei:
“Mas por que, cacete?”
Por que, depois de 58 horas de trabalho naquela semana, justo o meu momento de vida, de pessoa física, de ser humano, tem que ser o que cai?
Só porque eu sempre fiz assim?
Só porque o senso comum diz que a empresária bem-sucedida é aquela que nunca desmarca nada, que nunca falta em nada, que é mais sólida que a tabela periódica?
E aí, naquele dia, naquele caos, eu escolhi a PF.
Cancelei a PJ.
Não remarquei. Não adiei.
Cancelei.
Sabe o que aconteceu?
O que levaria duas horas para ser resolvido na reunião da PJ, eu resolvi em 15 minutos e deleguei o resto pro time
E me caiu a ficha com tanta força que eu vim compartilhar coma senhorita :
Quantas vezes a gente já fez o contrario?
Quantas vezes a primeira coisa que cai é aquela horinha da massagem que você tá esperando a meses?
A verdade é que você, empresária, talvez não precise de mais disciplina.
Talvez você precise de permissão.
Permissão pra viver.
Pra deixar um bloco da agenda sem compromisso.
Pra jogar futebol com teu sobrinho.
Pra comer pizza com a tua amiga sem abrir o notebook depois.
Pra fazer uma massagem terça-feira às 10h da manhã.
Pra, pela primeira vez, não só remarcar o trabalho, mas simplesmente não fazer.
E aí, você vai fazer um exercício comigo agora.
Sim, agora. Não depois. Agora.
Abra tua agenda dos próximos 7 dias.
Escolhe um bloco de duas horas. Qualquer dia, qualquer horário.
Coloca ali: “PF”
Vida, Eu, chama como quiser..
E o que tiver da PJ em cima disso…
Você vai cancelar.
Não transferir.
Não adaptar.
Não fazer depois.
Você vai cancelar.
E vai perceber que, sim, você dá um jeito.
Você sempre deu.
Você montou uma empresa do zero, sem ser herdeira, sem MBA gringo, sem anjo investidor.
Você construiu uma porra de um império com base nas (loucas) vozes da sua cabeça
Então você também consegue construir uma rotina que respeite tua PF.
Você não precisa ser menos responsável.
Você só precisa parar de confundir responsabilidade com autopunição.
E talvez, só talvez, a maior prova de maturidade empreendedora seja olhar pra tua agenda e falar:
“Isso aqui eu não vou fazer, porque eu vou viver.”
Então vai. Vai viver.
Pode deixar para depois