Carta 154
Pão com nutella
Uma sexta com acupuntura, sobrinho e soneca no sofá da vó pode parecer rotina comum — mas é exatamente esse tipo de dia que define o que sucesso de verdade significa quando você é dona do seu próprio tempo.
Buenas tardes, maravilhosa
Como a senhorita chega no dia de hoje?
Hoje eu chego o puro suco do sucesso.
Me sinto a dois passos da capa da Forbes.
Mas se acalme, não é esse tipo de sucesso que você está esperando. Eu ainda não virei um guru ostentação, fique tranquila.
Hoje eu quero conversar sobre um outro tipo de sucesso, e para ilustrar ele, vou te narrar o meu dia.
Hoje acordei ao lado do Sr. Fluido, com um barulhinho de chuva e debaixo das cobertas.
Ainda estava meio baqueada de ressaca.
Ontem nos esbaldamos em gramas obscenos de sorvete com Nutella.
Obrigada, Stonia, pela experiência gastronômica alcançada (acho que em breve vou começar a vender espaços de publi espontânea nessa carta).
Acordei ressacada do açúcar, tomei um banho quentinho, botei um short e uma camiseta jeans.
Fiz meu café em casa, no silêncio, vi um passarinho que eu já chamo de “meu passarinho” beber água na minha piscina.
Comi pão com muçarela de búfala e ovos.
Sentei na mesa da cozinha, abri meu tablet.
Recebi um link do Notion de uma das sereias: “Mari, pauta da nossa call de supervisão técnica de hoje.”
Abro a pauta, quase choro de emoção.
“Objetivo da reunião, pautas a serem discutidas, encaminhamentos e ações.”
Tudo lindamente configurado conforme o jeito Fluida de ser e trabalhar.
Começo a call com minha sereia. Antes de começarmos, passamos uns minutos fofocando sobre nossa nova habilidade a ser desbloqueada: fazer reuniões em um tablet quando você está acostumada a usar um computador mais uma tela extra três vezes o tamanho da sua cabeça.
Rimos muito.
Discutimos ponto a ponto, elogio um trabalho fodarástico que ela fez.
Temos 3 ideias de conteúdos impublicáveis aqui agora.
Nos despedimos.
Pego minha mochila e minha lancheira e me dirijo para a acupuntura.
Deito numa maca quentinha, com uma luz roxinha colorindo o ambiente, musiquinha relaxante.
Fura daqui, fura dali.
Depois das agulhinhas, ventosas.
As bichas sugam minha pele das costas.
Eu derreto de relaxamento feito uma lesma com hipoglicemia.
Fim da acupuntura.
Pego meu carro e dirijo até a escola do meu sobrinho. Sextas são dias sagrados aqui.
Meu celular descarrega no caminho, e eu que já fiz o caminho 29 meses, me embanano toda e preciso dar uma volta de mais uns 20 min para chegar em um caminho conhecido.
(Eu sou boa em muitas coisas, mas meu cérebro simplesmente se recusa a decorar caminhos. Nasceu o Waze e eu perdi essas conexões neurais.)
Chego na porta da sala da criança.
Ele segura uma cobra de plástico verde com um colega pendurado na outra.
Presumo que seja cabo de guerra.
Ele me vê na porta e grita:
“TIA NANA, POSSO FICAR MAIS 5 MINUTINHOS?”
Eu que já tinha chegado no limite do horário para pegar as crianças (pobres professoras), declaro que dessa vez não vai dar.
Ele, nesse momento, declara para o amiguinho o que eu suspeitava:
“Noah, segura aí no meu cabo de guerra.”
A professora intervém e encerra o cabo de guerra com a pobre da cobra em um ambiente cercado de mesas, paredes e todos os artefatos possíveis para a brincadeira terminar em chororô.
Ele se despede da professora, corre até a porta da sala e me dá um “toks” na mão.
“Toks” é nosso cumprimento da família, tipo um high five.
Pegamos a mochila e vamos na cantina fazer uma marmita pro almoço.
Marmitas feitas e devidamente embaladas, me dirijo para a casa da minha vó.
Eu, meu sobrinho e nossas marmitas.
Chegamos de surpresa, bato na porta. Como tenho a chave, eu abro.
Dou de cara com a minha vó de olho arregalado, já imaginando que espécie de meliante estava abrindo a porta da casa dela.
Vê o bisneto e abre o maior sorriso.
Ele sai correndo de trás de mim e vai logo dar o abraço na Bibi (esse é o nome que ele deu para a bisavó, “Bibi”).
Abraço esse também já um ritual entre os dois.
Enquanto arrumo nossos almoços, vejo minha vó de 81 anos brincar de bola no corredor com o neto de 4 anos.
Eles gargalham.
Ela tenta abaixar para pegar a bola que ele joga.
Ele morre de rir.
Sentamos para almoçar.
Depois do almoço, vou até o armário e pego uma mantinha.
Dessas bem fofinhas, sabe?
Lavadas em casa de vó, com cheiro de amaciante de vó. Aquela experiência sensorial que você nunca consegue repetir nas próprias roupas, não importa quantos litros de Chanel nº 5 você despeje na máquina, elas nunca ficam tão cheirosas quanto roupa lavada na casa da vó.
Deito no sofá.
Meu sobrinho pega um quebra-cabeça que ele já montou 398 mil e quinhentas vezes e enuncia:
“Vou montar quebra-cabeça.”
Minha tia chega.
Ele levanta e vai dar um abraço nela.
Fico sentada no sofá, enrolada na mantinha vendo essa cena acontecer.
Sinto sono chegando, o olho pesando e olho no relógio.
2:40… penso que dá tempo de tirar um cochilo antes do nosso compromisso semanal das 17h, nossas cartas.
Durmo uma soneca pesada. De fundo, ouço minha vó conversando com meu sobrinho, enquanto minha tia prepara uma “ducha da soneca” para ele.
Sim, o princeso toma uma ducha especialmente preparada para ele todas as sextas-feiras antes de sua sagrada soneca.
Já é um ritual.
Ducha quentinha, massagem nos pés (sim, minha tia faz massagem nos pés dele toda santa vez) e soneca no sofá.
Percebo que o barulho de fundo diminuiu.
Adormeço mais profundamente.
Descanso, sonho, descanso mais um tico.
Acordo, espreguiço.
Caê já está dormindo sua soneca dos justos.
Minha vó vagueia pela casa caçando algum trem para fazer enquanto seu pupilo amado não acorda.
Abro meu tablet e escrevo essa carta para você.
Depois de mandar para o meu time fazer com que ela chegue na sua caixa de entrada, eu vou esperar Caê acordar. Faremos um lanchinho.
Provavelmente minha vó vai fazer sanduíche de muçarela de búfala na chapa (acabei de ver mais um produto que já posso buscar patrocinadores).
Depois do bucho forrado, nos despediremos da minha avó e vou deixar o pacote em sua residência.
Vou para casa depois e ou vou gastar minhas novas canetinhas pintando Bob Goods ou vou ver mais um episódio de Largados e Pelados.
Sr. Fluido chega, me pergunta como foi o dia, nos atualizamos das fofocas e vamos ver memes duvidosos que ele seleciona ao longo do dia para vermos juntos.
Deito de novo na cama que acordei e durmo.
Essa é a minha vida em uma sexta-feira.
Não em uma específica, essa é minha rotina normal, toda santa sexta.
Mas o que raios isso tem a ver com sucesso?
Eu tenho TEMPO para viver isso.
Visito minha vó de 81 anos toda sexta.
Vejo meu sobrinho crescendo a olhos vistos, criando memórias com a Bibi dele.
Como as iguarias que minha vó inventa todo dia.
Tomo café da manhã em casa.
Isso é sucesso.
É sucesso porque é o que ME faz sentir que eu também vivo para além da PJ.
Que, apesar das dezenas de horas investidas na Fluida toda semana, eu sinta que ainda vivo.
Que construo memórias e passo o precioso e escasso tempo que minha vó ainda tem aqui com ela.
Estamos acostumadas a consumir uma ideia muito fixa de sucesso.
Casa grande, pé-direito alto, janelão de vidro, paredes brancas, refeições diminutas em grandes pratos redondos com folhinhas verdes sinalizando a vultuosa quantia paga pela iguaria, viagens de primeira classe, taças com bebidas borbulhantes, uma bolsa de muitos dígitos, plaquinhas de faturamento.
Isso é sucesso.
Pelo menos parece que é.
E sem perceber a gente começa a também querer isso.
Querer sem saber que quer.
Ir atrás sem saber que tá indo.
Parece que falta algo.
Que a vida tá low ticket demais.
Achamos nossa rotina corriqueira uma mixaria.
Não é.
Poder investir um dia inteiro da minha semana em cuidar de mim, ficar com meu sobrinho e cochilar no sofá da minha vó é minha medida de sucesso.
Não é a única.
Mas é uma que me lembra: porra, que vida massa essa, hein?
Sim, minha vida é muito massa.
Você me viu descrever um dia inteiro da minha vida.
Não tem mala de viagem, foto de painel de embarque nem o último look comprado.
Mas eu tenho certeza que você sentiu o cheiro da mantinha lavada pela minha vó, soltou um risinho quando imaginou uma senhora de 81 anos jogando bola com uma criança de 4, e até sentiu um bocejo subindo à garganta quando te falei da minha soneca vespertina.
Sucesso é isso.
Esse mix de sensações que abraçam o corpo.
Que fazem seu sistema nervoso dizer:
“tamo segura, galera, podem baixar a guarda”.
É poder confiar no seu time e se orgulhar com a pauta lindamente formatada que já chega pronta pra você.
Sucesso são esses trechos da vida que a gente que é empresária precisa de MUITA disciplina para não arrancar da vida na primeira crise.
Que precisamos nos lembrar todo santo dia que PODEMOS fazer.
E isso só acontece quando a gente entende que a PF vem sempre antes da PJ.
E demora, porque o mundo quer que você acredite no contrário.
Eu não sei qual é a sexta-feira perfeita nas suas definições de sucesso, mas eu chuto com uma boa dose de acurácia que ela talvez se pareça muito mais com a minha sexta do que com as sextas que você tem visto nos stories dos gurus que você acompanha.
Talvez você já viva dias bem próximos do que é sucesso para você. Talvez você sinta que ainda tá bem longe.
Em todos os casos, se você quer começar ou se você quer manter uma vida que cuida da sua PF enquanto cresce a sua PJ, você vai precisar intencionalmente PLANEJAR isso.
NINGUÉM vai te dar isso.
Na verdade, é bem provável que a maior parte dos ensinamentos que você tenha na sua vida empresarial vão te jogar exatamente para o oposto disso.
Vão te convencer que sucesso é consumo.
Que crescimento só vem com muito esforço.
E que você tem “crenças de escassez” porque não deseja uma bolsa que tem o valor de uma moto.
Você não precisa perseguir uma vida que não é a que te preenche só porque não sabe como desenhar outra que faça mais sentido.
Você pode gerir a sua PJ enquanto vive a sua PF.
Se é esse tipo de vida empreendedora que faz sentido para você, então temos um compromisso marcado.
Semana que vem, dia 4 de novembro, vamos desenhar os últimos 60 dias do seu ano no planejamento mais ridículo que você já viu para bater as suas metas fazendo somente o necessário.
Necessário às vezes é comer um pão com Nutella após o almoço na casa da sua vó.
Às vezes é passar uma tarde num spa superfaturado sendo amassada por uma massagista bombada.
Seja qual for a sua sexta de sucesso, você pode criá-la para você.
Te espero terça que vem.
Agora preciso sair que um sanduíche prensado na sanduicheira me aguarda.