Carta 108
Porco de massinha
Sobre a importância de ser lenta num mercado que quer que você corra para fechar o ano a qualquer custo.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSAS!
Como as senhoritas estão?
Já vou começar contando que **a carta de hoje está sendo escrita em condições totalmente não normais **de pressão e temperatura.
(Para você que é Fluida novata, vou explicar: desde que meu sobrinho nasceu, decidi que mexeria na minha rotina para ficar uma vez por semana com ele. Estamos há 3 anos ininterruptos, tirando minhas férias, juntos todas as sextas).
As sextas são, ao mesmo tempo, o melhor e mais louco dia da semana.
Eu amo passar as tardes com ele e inventar 98 brincadeiras para distrair uma mente com HD limpinho, sedenta por atenção e conhecimento.
Mas, ao mesmo tempo, eu tenho que inventar 98 mil coisas para distrair uma mente com HD limpinho e sedenta por atenção e conhecimento.
Hoje, o bendito resolveu tirar sua soneca da tarde mais cedo.
O que eu prontamente comemorei, pois me daria mais tempo para ficar no mais profundo silêncio sozinha.
Mas eu fui juvenil e esqueci que, certamente, ele acordaria mais cedo que o habitual também.
Foi o que aconteceu.
Bem quando comecei a escrever nossa carta, o abençoado acordou.
Não sei se você tem experiência com crianças pequenas, mas, nesse momento, já ouvi pelo menos 39 versões de “vem brincar comigo.”
Me encontro ao lado do meliante que está rodeado de massinha **e se recusa a deixar meus neurônios livres para pensar na carta **de hoje.
Então, se a carta de hoje for uma versão sem pé nem cabeça do que já é nossa habitual esquisitice de sexta, vocês já sabem o motivo.
Eu já tinha um tema na cabeça para hoje, mas, por bela ironia do destino, terei que fazer essa carta já me contradizendo no que direi.
Você vai entender.
Hoje eu queria conversar com as senhoritas sobre a importância de ser lenta.
Isso mesmo.
Eu vou ter que falar sobre o valor de ser uma lesma enquanto digito na velocidade da luz, pois há uma criança me aguardando para fazer um macaco de massinha.
Enfim, a hipocrisia.
Comecemos.
O mercado inteiro vai falar para você ser a mais rápida do seu segmento. Para você testar rápido, errar rápido e aprender rápido.
Não é de todo errado.
Mas tem uns momentos no negócio em que tudo de mais maravilhoso que você pode fazer é se apoderar do arquétipo da tartaruga cansada.
Se arrastar bem devagarzinho, sem pressa.
Vou explicar por quê:
E, para levantar meu ponto, vou te fazer uma pergunta:
Você está sentindo uma palpitação esquisita de que “o ano acabou”?
Que você tem que começar a correr que nem uma capivara enlouquecida para “fechar o ano”?
Tá rolando uma sensação estranha de aceleração do tempo, como se seu 2025 estivesse prestes a ir para as ruínas se você não fizer nada?
Se você é uma empresária vivendo no planeta Terra, é provável que sim.
Todo fim de ano existe essa narrativa inconsciente
de que estamos próximas do fim.
E aí junta a cultura de Black Friday, que os brasileiros levaram ao limite, e parece que você tem que vender tudo do an agora.
IMEDIATAMENTE. JÁ. NÃO HÁ TEMPO PARA NADA.
Eu vivi essa adrenalina autoinduzida por alguns anos na Fluida, quando a gente fazia lançamento (até hoje me pergunto onde raios eu estava com a cabeça).
Eu estava acostumada à sensação de aperto no peito com a incerteza dos resultados.
Com a leve embolada no estômago todo mês que tínhamos uma ação de vendas novas e só daria para saber o resultado quando ela terminasse.
Eu vivi isso vários anos.
Até que um dia (ou talvez um acúmulo deles) decidi que esse troço não estava certo.
Que eu queria poder ir mais devagar.
Para resumir a história: eu matei o modelo de negócio que vinha construindo há 4 anos, refiz a equipe inteira, criei uma esteira nova e simbora começar de um jeito diferente.
Eu não sabia se daria certo.
Mas, 2 anos depois: glórias às deusas, eu tomei essa decisão.
(Acabei de ser chamada mais uma vez: “Vem, tia Nana!” Aceleremos.)
Bom, talvez você esteja vivendo isso agora, nessa época do ano.
A sensação de que, se você não correr, algo terrível acontecerá.
Mas eu queria que você parasse 2 segundinhos para pensar comigo.
Você está correndo de quê?
Para onde?
Ou só está correndo porque parece que tem que correr?
Porque fulana disse que “seu 2025 começa agora”/
Não começa não, cacete.
Dá uma respiradinha aí.
Você pode, óbvio, se adiantar no planejamento do ano (nós estamos fazendo isso, inclusive), mas sair desembestada “planejando 2025” sem ter parado para dar uma olhadinha com calma no que você fez é pior do que não fazer porra nenhuma.
Se dê o direito de andar um tico mais devagar.
Quando estamos correndo, é difícil ver as coisas com nitidez.
Fica tudo meio borrado, as cores se misturam e tudo vira uma linha horizontal na sua visão periférica.
Experimenta se recusar a correr por uma semaninha.
Você precisa mesmo fazer uma campanha de Black Friday?
Faz sentido?
Precisa lançar produto novo agora?
Precisa inventar mais um evento megalomaníaco para você e seu time doidas fazerem “antes do ano terminar”?
Às vezes precisa.
Mas avalia aí se isso é uma necessidade concreta do seu negócio.
Ou só um tesão coletivo pela adrenalina autoinduzida.
Reflete aí, que o dever me chama: um porco cor-de-rosa de massinha.
Beijos,
Tia Nana
Mari Fernandes